quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Zootopia 2


Por Isa Barretto

'Zootopia 2' confirma algo que o primeiro filme já insinuava: nunca foi só uma animação para crianças.

A continuação amplia o universo criado em 2016 com segurança e inteligência. A cidade cresce, os conflitos amadurecem e a narrativa assume, sem disfarces, que conviver é mais complexo do que apenas dividir o mesmo espaço. Aqui, o mundo é maior — e as contradições também.

Nesta sequência, os detetives Judy Hopps e Nick Wilde se encontram na trilha sinuosa de um réptil misterioso que chega a Zootopia e vira a metrópole animal de cabeça para baixo. Para desvendar o caso, a dupla deve se infiltrar em novas e inesperadas partes da cidade, onde sua crescente parceria será testada como nunca.

Visualmente, o salto é evidente. A animação está ainda mais bonita, detalhada e viva. Há uma evolução gráfica clara no uso de texturas, iluminação e profundidade de campo, que faz Zootopia parecer mais orgânica, mais caótica e mais próxima das grandes cidades reais. Cada novo distrito carrega identidade própria, reforçando a ideia de que as diferenças não são apenas culturais, mas estruturais.

Essa sofisticação técnica caminha lado a lado com a criatividade. O filme é inventivo nas soluções visuais, nas situações e na forma como usa o humor para atravessar temas delicados. Nada soa gratuito. A imaginação está sempre a serviço da história — e nunca o contrário.

O roteiro é o grande motor do filme. Mais do que repetir a metáfora de predadores e presas, 'Zootopia 2' aprofunda a discussão sobre aceitação das diferenças, agora de maneira mais sutil e adulta. O preconceito não aparece apenas como medo explícito do outro, mas como julgamento silencioso, exclusão disfarçada de regra e decisões institucionais que afetam grupos inteiros. A mensagem é clara: igualdade não é tratar todos da mesma forma, e sim compreender contextos, limites e histórias distintas.

Judy e Nick seguem como o coração da narrativa. A relação entre os dois amadurece, ganha tensão e complexidade, refletindo o peso de quem virou símbolo em um sistema que ainda falha. Judy continua idealista, mas menos ingênua. Nick, mais consciente de seu lugar, equilibra ironia e sensibilidade. Juntos, eles representam o esforço constante — e cansativo — de tentar fazer o certo dentro de estruturas imperfeitas.

A trilha sonora merece destaque especial. O trabalho de Michael Giacchino é, mais uma vez, impecável. A música acompanha o crescimento emocional do filme, alternando leveza, tensão e emoção com precisão. Não é apenas fundo sonoro; é narrativa. A trilha ajuda a guiar o espectador pelos momentos de humor, investigação e conflito, reforçando o impacto de cada cena sem nunca sobrecarregar.

'Zootopia 2' é um filme que confia na inteligência do público. Ele diverte, emociona e provoca reflexão sem precisar didatizar. Ao falar de diferenças, não aponta soluções fáceis nem vilões absolutos. Prefere mostrar o desconforto de conviver, errar e tentar de novo.

No fim, a sensação é clara: a animação evoluiu, a história amadureceu e a mensagem ficou ainda mais necessária. 'Zootopia 2' prova que criatividade, técnica e um bom roteiro podem — e devem — caminhar juntos. É cinema de animação no seu melhor momento: bonito de ver, inteligente de ouvir e impossível de ignorar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Bugonia

 

Por Isa Barretto

E se a paranoia não fosse exatamente um desvio, mas apenas um reflexo exagerado do mundo em que vivemos?

Em Bugonia, Yorgos Lanthimos retorna ao terreno que domina como poucos: o desconforto. Inspirado no filme sul-coreano Jigureul Jikyeora!, o diretor constrói uma narrativa que mistura absurdo, humor ácido e crítica social para expor uma sociedade cada vez mais desconectada da realidade — e perigosamente convencida de suas próprias certezas.

A história acompanha dois homens comuns que passam a acreditar que uma poderosa executiva de uma grande corporação não é humana, mas uma alienígena infiltrada com intenções de destruir o planeta. A partir dessa suspeita, o filme se desenvolve como um sequestro improvável, quase grotesco, que oscila entre o ridículo e o inquietante. O ponto, porém, nunca é confirmar a teoria, mas observar até onde essa lógica pode levar quando o medo e a desinformação assumem o controle.

É justamente nesse exagero que Bugonia encontra sua crítica mais contundente. A ideia de que alguém só poderia ser “de outro planeta” para agir com tamanha frieza escancara uma percepção social cada vez mais comum: a de que grandes indústrias e corporações passaram a tratar pessoas como números, recursos descartáveis ou danos colaterais aceitáveis. Em alguns momentos, o comportamento corporativo retratado no filme soa tão desumano que a hipótese extraterrestre parece, ironicamente, mais fácil de engolir.

Emma Stone, mais uma vez em sintonia com Lanthimos, sustenta essa ambiguidade com uma atuação precisa. Sua personagem representa esse poder distante, quase inatingível, que decide destinos sem contato real com quem é afetado por essas decisões. Jesse Plemons complementa o jogo ao encarnar a paranoia crescente, mostrando como narrativas simplistas encontram terreno fértil em contextos de desigualdade, medo e falta de diálogo.

A crítica social de Bugonia não é explícita nem didática. Lanthimos prefere o desconforto ao discurso direto. O filme fala de teorias conspiratórias, manipulação da informação, relações de poder e da banalização da crueldade institucional. Não para apontar vilões individuais, mas para questionar estruturas que normalizam a desumanização em nome de eficiência, lucro ou controle.

Visualmente, o diretor mantém sua estética fria e calculada, reforçando a sensação de distanciamento emocional. A trilha sonora e os enquadramentos criam um clima constante de tensão, flertando em alguns momentos com o terror psicológico — não pelo susto, mas pela percepção de que o absurdo apresentado não está tão distante da realidade.

Mais do que contar uma história, Bugonia funciona como um espelho distorcido do nosso tempo. Ao exagerar os comportamentos, o filme evidencia algo incômodo: talvez não seja preciso vir de outro planeta para agir de forma tão insensível. Basta ocupar uma posição de poder por tempo suficiente.

Lanthimos entrega mais uma obra provocadora, que incomoda, questiona e recusa respostas fáceis. Bugonia não é um filme confortável — e talvez exatamente por isso seja tão necessário.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Dica Netflix - Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out


Por Isa Barretto

Num filme em que todos parecem inteligentes demais, a pergunta não é apenas quem matou — mas quem está escondendo melhor suas intenções.

Em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, Rian Johnson retorna ao universo da franquia com um roteiro muito bem construído, que conhece profundamente as regras do gênero e sabe quando segui-las ou subvertê-las. O mistério está presente do início ao fim, mas o maior mérito do filme está na forma como ele conduz o espectador, oferecendo pistas com cuidado e criando a sensação constante de que algo está fora do lugar.

Na trama, Benoit Blanc é chamado para investigar uma morte cercada por circunstâncias suspeitas, reunindo em um mesmo ambiente um grupo de personagens influentes, articulados e cheios de segredos. Conforme a investigação avança, versões conflitantes se acumulam, alianças se mostram frágeis e cada novo depoimento adiciona mais camadas à história, deixando claro que ninguém ali revela tudo o que sabe.

Daniel Craig volta como Benoit Blanc em um registro já familiar, mas ainda eficiente. Seu detetive observa mais do que age, escuta com atenção e parece sempre um passo atrás — até o momento em que tudo começa a se encaixar. Essa postura permite que os outros personagens se revelem aos poucos, muitas vezes mais por vaidade do que por descuido.

O elenco de apoio sustenta bem o jogo proposto pelo roteiro. Cada personagem carrega uma camada de ambiguidade que alimenta o mistério e mantém a narrativa em movimento. Josh O’Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis , Jeremy Renner e Kerry Washington transitam entre charme, desconfiança e oportunismo, compondo um conjunto em que ninguém é totalmente confiável.

Rian Johnson conduz a história com ritmo preciso. As revelações não surgem de forma abrupta, mas são construídas ao longo do caminho, alternando entre momentos de humor com sequências de tensão. Em alguns trechos, o filme flerta com o terror leve — escuros, silêncios prolongados e enquadramentos que criam desconforto — ampliando a sensação de ameaça sem abandonar o tom do mistério.

A influência dos clássicos do gênero é clara. Há ecos de Agatha Christie e da lógica dedutiva de Sherlock Holmes, mas tudo filtrado por uma abordagem contemporânea, mais irônica e visualmente mais dinâmica. Aqui, o espectador participa ativamente do jogo, sendo conduzido por pistas que parecem óbvias, mas nem sempre são.

Mais do que um simples quebra-cabeça, Vivo ou Morto é uma narrativa sobre versões, interesses e escolhas. A Netflix aposta em um filme que respeita o gênero, atualiza sua linguagem e entrega entretenimento inteligente, capaz de prender a atenção até o último ato.

No fim, o mistério se resolve. Mas o que permanece é a experiência de acompanhar um roteiro bem amarrado, que sabe dosar humor, tensão e suspense, e que confirma a força desse universo criado por Rian Johnson.


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Dica Netflix - Jay Kelly

 

Por Isa Barretto

O que sobra quando o sonho se realiza?Essa é a pergunta que atravessa Jay Kelly, novo filme de Noah Baumbach. A narrativa acompanha um ator consagrado em viagem pela Europa ao lado de sua equipe e de seu empresário. À primeira vista, tudo parece em ordem: a carreira está consolidada, o reconhecimento existe e os compromissos se acumulam. Com o avanço da história, no entanto, fica evidente que esse percurso também deixou vazios difíceis de ignorar.

George Clooney constrói um personagem que já não precisa provar nada ao mundo, mas que começa a sentir o peso das decisões que o trouxeram até ali. A fama, distante de qualquer glamour, aparece como rotina — hotéis, reuniões e deslocamentos constantes — criando a sensação de movimento contínuo, mas pouca conexão real com o que, de fato, importa.

Nesse cenário, o empresário vivido por Adam Sandler surge como um contraponto essencial. É ele quem mantém tudo funcionando, organiza agendas e sustenta a lógica da indústria. Sua presença deixa claro que muitas escolhas não são feitas por falta de afeto, mas por prioridade. E, nesse processo, relações acabam sendo adiadas, ajustadas ou reduzidas para que o projeto maior continue avançando.

Essas ausências ganham densidade com os personagens de Laura Dern e Billy Crudup, que trazem à tona vínculos interrompidos e diálogos carregados de não ditos. Baumbach evita confrontos diretos e aposta em conversas contidas, pausas prolongadas e silêncios que dizem mais do que longas explicações. É nesses espaços que o filme encontra sua força.

A frase de Sylvia Plath parece ecoar ao longo da narrativa:

“É uma responsabilidade infernal ser você mesmo; é muito mais fácil ser outra pessoa ou ninguém.”

Sustentar uma identidade construída ao longo dos anos exige esforço — especialmente quando ela já não reflete, por completo, quem se é no presente.

Com um ritmo calmo e observacional, Jay Kelly expõe as consequências das escolhas feitas e confia ao espectador a tarefa de tirar suas próprias conclusões. Ao final, permanece a constatação de que toda decisão abre caminhos — e fecha outros — e que compreender o custo dessas escolhas, muitas vezes, acontece tarde demais.


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Dica Netflix - Frankenstein

 

Por Isa Barretto

Há quem diga que somos, em grande parte, o resultado daquilo que recebemos — ou deixamos de receber — daqueles que vieram antes de nós.
E a ausência, quando repetida por gerações, cria um ciclo quase automático: quem foi tratado com frieza tende a reproduzir a mesma distância, e quando finalmente tem a chance de ser diferente, muitas vezes falha.
Prefere repetir o padrão conhecido, mesmo que doloroso — e é essa espinha dorsal que atravessa essa releitura de Frankenstein.

Guillermo del Toro sempre enxergou os monstros de um jeito diferente.

Em vez de se deter nas formas e nas deformidades, ele busca o que existe por trás delas — a humanidade, o medo e o afeto escondido sob a pele.

Em Frankenstein, ele retoma esse olhar e transforma o clássico de Mary Shelley em algo mais íntimo: uma história sobre o impulso de criar e o preço de fazê-lo.

Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac, não é o cientista enlouquecido de outras versões. É um homem que cria para preencher o vazio, tentando dar sentido à própria solidão. Sua busca pela perfeição se confunde com a incapacidade de aceitar seus próprios limites.

Jacob Elordi, como a Criatura, é o reflexo desse erro. Ele nasce sem culpa, mas é condenado pelo abandono. É um corpo forte com uma alma frágil — e cada olhar carrega o peso de quem foi feito, mas nunca amado.

Entre os dois se constrói a verdadeira tragédia: o criador foge daquilo que fez, e o ser criado busca entender por que existe. Del Toro filma essa relação com calma, deixando o desconforto crescer em silêncio. Não existe vilão, apenas a dor de reconhecer-se no outro.

A fotografia de Dan Laustsen reforça essa ideia. Os tons frios e as sombras longas criam distância, não medo. O visual gótico é elegante, quase contemplativo. Tudo parece girar em torno da culpa — de quem cria e de quem foi criado.

O elenco é preciso. Oscar Isaac entrega um Victor contido, dividido entre o orgulho e o arrependimento. Elordi transforma a Criatura em um ser vulnerável e humano. Mia Goth e Christoph Waltz completam o elenco com atuações que equilibram razão e emoção.

Del Toro preserva o espírito do romance de Shelley, mas fala com a voz do presente.

Se no século XIX o homem tentava ser Deus através da ciência, hoje ele tenta fazer o mesmo através do controle.

O resultado é um filme que não busca sustos, mas reflexão.

Frankenstein é menos sobre monstros e mais sobre o que fazemos com o que criamos.

É sobre o medo de amar o que não compreendemos — e o risco de negar o que se parece demais conosco.

E talvez entender que o verdadeiro monstro pode nao ser quem nasce... mas sim quem abandona.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Dica Amazon Prime Video - Eden

 

Por Isa Barretto

Há algo de profundamente humano na tentativa de começar de novo — de apagar o passado e reescrever o futuro em outro lugar.

Em Éden, Ron Howard nos conduz às Ilhas Galápagos, onde um grupo de europeus decide fundar uma sociedade perfeita, longe da guerra e da corrupção do mundo moderno. Mas a natureza, impassível, apenas observa enquanto o velho roteiro da humanidade se repete: a criação, o conflito e a queda.

Com Jude Law, Ana de Armas, Vanessa Kirby, Sydney Sweeney e Daniel Brühl, o filme mergulha na tensão entre o ideal e o instinto. O paraíso logo revela sua face mais cruel — a de um sonho que apodrece quando o ego toma o lugar de Deus. Howard filma com precisão e paciência, permitindo que o calor, o silêncio e o mar se tornem personagens de um drama que é tanto físico quanto espiritual.

O receio aqui não vem da selva, mas do humano. Cada personagem carrega o próprio Éden dentro de si: um desejo, uma culpa, uma fuga. Quando esses mundos colidem, o isolamento se torna espelho e a utopia, penitência. O filme nos lembra que o inferno não é o lugar para onde somos lançados, mas aquele que construímos quando acreditamos poder controlar o paraíso.

Éden revela que toda utopia nasce condenada — não pela natureza, mas pelo homem.

Porque o verdadeiro fracasso não está em sonhar com o paraíso, mas em acreditar que podemos habitá-lo sem antes encarar o que há de mais imperfeito em nós.

Howard nos mostra que não é o isolamento que destrói — é o espelho que ele cria. E diante dele, o homem descobre que o paraíso nunca foi perdido: foi apenas corrompido por dentro.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (2025)


Por Isa Barretto

Em um país afogado na desesperança, cinquenta adolescentes são reunidos para um evento que mistura espetáculo, obediência e morte: caminhar sem parar, sob um ritmo imposto, até que reste apenas um sobrevivente.

Dirigido por Francis Lawrence e baseado no romance “A Longa Marcha”, de Stephen King (publicado sob o pseudônimo Richard Bachman), o filme apresenta Cooper Hoffman como Ray Garraty e David Jonsson como Peter McVries — dois jovens obrigados a transformar a esperança em resistência.

A metáfora é implacável: todos estamos numa estrada cujo fim conhecemos, mas fingimos ignorar. A juventude nos dá a ilusão da eternidade — até que a realidade impõe seu ritmo. No filme, a escolha de participar parece voluntária, mas logo se revela uma armadilha social, um pacto silencioso com o controle e o desespero. O terror não está nas sombras, mas no passo seguinte. Está em ver o outro cair e ainda assim continuar. O horror aqui é humano, cotidiano, palpável: o som ritmado de pés cansados e o silêncio que cresce onde antes havia voz.

Paradoxalmente, é nesse chão duro da marcha que florescem as amizades mais puras. Quando tudo conspira para o individualismo, o que resiste é o olhar cúmplice de quem caminha ao lado. O gesto de dividir a água, o fôlego compartilhado, o toque que impede a queda — pequenos atos que viram resistência. A amizade, neste contexto, não é prêmio: é a própria sobrevivência.

Lawrence conduz a narrativa com precisão cirúrgica, equilibrando frieza e compaixão. Ele sabe que não é preciso monstros para o medo nascer; basta mostrar o humano diante do limite. Hoffman entrega uma atuação marcante — o corpo que cede, mas o olhar que insiste. Já Jonsson interpreta o despertar amargo de quem entende cedo demais que vencer pode significar perder o que mais importa.

Mais do que uma distopia, A Longa Marcha é uma parábola sobre a vida moderna: a pressão de “vencer”, o espetáculo da dor como entretenimento, o luto silencioso que carregamos sem nomear. Ray caminha por um pai ausente; Peter, por um ideal que desmorona. Ambos representam uma geração exausta, empurrada a continuar mesmo sem saber por quê.

No fim, é sobre como a vida pode ser dura. Às vezes, cruel. E às vezes, ser apenas indiferente.

O terror não está no destino, mas no caminho — na persistência, na solidão, na coragem de dar mais um passo. Porque ali o troféu é ilusório; o que fica mesmo é o rastro deixado pelos que tombaram e a dignidade silenciosa de quem ainda avança.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Hereditário


Por Isa Barreto

Poucos filmes recentes conseguiram provocar tanto desconforto quanto Hereditário. Dirigido por Ari Aster em sua estreia no cinema, o longa transforma o luto em um ritual de horror, onde o medo não vem de fantasmas, mas da herança invisível que carregamos — nossos traumas, nossas culpas, nossas linhagens de dor.

A história acompanha Annie (Toni Collette), uma artista que constrói miniaturas de sua própria vida, como se tentar controlar o caos pudesse torná-lo suportável. Ao lado do marido Steve (Gabriel Byrne) e dos filhos Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro), ela tenta lidar com a morte da mãe — uma mulher enigmática, que deixou mais do que lembranças. O que começa como drama familiar logo se transforma em algo muito mais sombrio: uma herança literal e espiritual que consome cada um dos personagens.

A câmera de Aster observa, mais do que acompanha. Mantém distância nos momentos em que o espectador quer se aproximar, e se aproxima quando o desconforto é insuportável. Os planos fixos e longos — muitas vezes dentro da própria casa — criam uma sensação de aprisionamento, como se estivéssemos dentro das miniaturas de Annie, incapazes de escapar. A fotografia é fria, quase clínica, e a iluminação parece vir de dentro do próprio pesadelo.

Há um terror que se constrói no silêncio: o barulho seco de uma língua estalando, a respiração contida, o vazio entre uma fala e outra. O filme entende que o verdadeiro horror não está no susto, mas na espera. Cada gesto da câmera é uma provocação — ela convida o espectador a olhar de novo, a questionar o que é real e o que é apenas reflexo de um trauma coletivo.

Toni Collette entrega uma atuação devastadora, que vai da contenção ao desespero absoluto. Seu corpo é o campo de batalha do luto — tenso, torto, em colapso. Alex Wolff, como Peter, traduz a culpa e a herança familiar de forma visceral, fazendo do silêncio uma forma de grito. Milly Shapiro, com seu olhar inquietante, encarna o estranhamento da infância, e Gabriel Byrne é o retrato da impotência diante do caos.

Hereditário é sobre o medo que herdamos sem perceber. Sobre como o amor pode se deformar quando misturado à perda. Sobre famílias que se desintegram tentando se manter inteiras. O filme não busca apenas assustar — ele deseja permanecer. E permanece.

O calafrio que fica não é o do sobrenatural, mas o da constatação de que às vezes o mal não vem de fora: ele é passado de geração em geração, como um segredo guardado em silêncio.

Vencedor absoluto da Lista “Especial Noites de Medo” — porque depois de Hereditário, o verdadeiro terror é olhar para dentro.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Especial Halloween

NOSSA LISTA DE HALLOWEEN – Especial Noites de Medo

Por Isa Barretto e Rafael Morais

O cinema de terror é uma viagem pela nossa própria imaginação — aquilo que tememos, negamos ou fingimos não ver. Ele fala de sombras e de silêncios, mas também do que há de mais humano: o medo do desconhecido.

Nesta lista, reuni histórias que desafiam a razão e exploram diferentes formas de horror — psicológico, sobrenatural, simbólico e visceral. São filmes que marcaram época e redefiniram o gênero, cada um à sua maneira.

Prepare a pipoca (e o coração). As luzes vão se apagar.

1) Psicose (1960)
De Alfred Hitchcock, Psicose é o marco do suspense moderno. O diretor transforma o cotidiano em ameaça e cria uma das cenas mais icônicas do cinema — o chuveiro nunca mais seria o mesmo. A tensão cresce em torno de Norman Bates e seu motel isolado, onde o terror nasce não de monstros, mas da mente humana.


2) O Exorcista (1973)
William Friedkin fez história ao adaptar o livro de William Peter Blatty. O Exorcista é um retrato do mal em sua forma mais pura, envolvendo fé, desespero e sacrifício. As atuações intensas e os efeitos práticos realistas tornaram o filme uma experiência quase física — e até hoje ele provoca o mesmo arrepio.


3) A Profecia (1976)
Em épocas de exorcismos e bebês de Rosemary, 'A Profecia' chega com uma proposta já concedida: o anticristo nasceu e está entre nós. Marcado como o filme mais agourento de todos tempos, 'The Omen' vai além e se sobressai superando a superstição e as tragédias dos bastidores. Uma obra indispensável para os fãs do horror.


4) Halloween (1978)
John Carpenter cria o arquétipo do assassino mascarado com Halloween. Michael Myers é o rosto do mal que retorna sem motivo, apenas para matar. A trilha minimalista e a câmera subjetiva dão ritmo ao terror, provando que o medo pode estar logo atrás da porta.


5) Alien, o 8º Passageiro (1979)
Ridley Scott funde ficção científica e terror claustrofóbico num filme revolucionário. A tripulação da nave Nostromo é caçada por uma criatura perfeita, nascida do pesadelo e da biologia. Alien é o medo do desconhecido em estado puro — e a força feminina de Ripley tornou-se um ícone de resistência.


6) O Silêncio dos Inocentes (1991)
Jonathan Demme constrói um suspense psicológico brilhante, conduzido por diálogos afiados e pela presença hipnótica de Anthony Hopkins como Hannibal Lecter. Mais que um thriller, o filme explora o poder e o medo, a fragilidade e a inteligência em um jogo de caça e caçador.


7) A Bruxa de Blair (1999)
Com aparência de documentário, A Bruxa de Blair reinventou o gênero de terror com baixo orçamento e alta tensão. O que não é mostrado é o que mais assusta. A câmera tremida e a ausência de respostas criam uma sensação de realidade inquietante, que marcou toda uma geração.


8) Os Outros (2001)
Alejandro Amenábar transforma o suspense gótico em uma história de luto e revelações. Nicole Kidman entrega uma atuação delicada e intensa como uma mãe presa entre a fé e o medo. Os Outros é uma lição sobre atmosfera — o susto está menos no que se vê e mais no que se imagina.


9) Hereditário (2018)
Ari Aster traz o terror familiar ao extremo. Hereditário é um mergulho na dor, no luto e na herança do mal. O desconforto cresce cena a cena, até explodir em puro desespero. Toni Collette entrega uma das atuações mais intensas do gênero, transformando o trauma em horror.


10) Speak No Evil (2022)
Um filme que incomoda do inicio ao fim. Niilista, a obra nos coloca em posição indefesa diante da maldade e crueldade do próximo. Aqui, aprendemos da pior forma que ser permissivo demais pode ser muito arriscado. Perder a própria essência é apenas o começo do caos.

O medo também é uma forma de conhecer a nós mesmos.

Boo!
Feliz Halloween!

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Dica Netflix - Steve

 

Por Isa Barretto

Há filmes que se constroem como histórias, e há outros que se constroem como experiências. Steve pertence a essa segunda categoria. A câmera não apenas observa — ela respira dentro da escola, tropeça junto com os personagens e revela o retrato de um sistema em colapso. São poucas horas dentro daquele espaço, mas o tempo parece expandir-se, como se a rotina tivesse um peso próprio, sufocante e quase físico.

Baseado no livro Shy, de Max Porter, e dirigido por Tim Mielants, o filme acompanha um único dia na vida de Steve, interpretado com uma intensidade extremamente contida por Cillian Murphy. Diretor de uma escola para adolescentes marginalizados, ele tenta manter o controle de um ambiente que já não responde à autoridade. Entre reuniões, crises e silêncios prolongados, o que desaba diante da câmera não é apenas a instituição — é principalmente o homem que a sustenta.

A narrativa se desenvolve em tempo quase real, e é isso que dá ao filme sua força: o espectador sente o avanço das horas como se estivesse preso dentro daquela escola. A fotografia crua, os planos próximos e o som que mistura vozes e ruídos transformam o cotidiano em tensão pura. A direção não antecipa o caos com música ou truques visuais; ela o insinua. A câmera se aproxima, hesita, muda de foco — e essa inquietação faz o público pressentir o descontrole antes mesmo que ele aconteça.

Cillian Murphy carrega o filme com uma atuação que parece estar sempre ali: à beira do colapso. Cada olhar é uma tentativa de permanecer, cada gesto revela o desgaste de quem acredita demais. Há algo profundamente humano na forma como ele tenta manter a compostura enquanto o mundo à sua volta se fragmenta. Murphy não apenas atua — ele desaba em silêncio, e é nesse silêncio que o filme encontra sua alma.

A direção de Mielants evita qualquer embelezamento: corredores gastos, luz fria, conversas atravessadas, vozes que se sobrepõem. Tudo parece natural, mas nada é casual. Cada enquadramento é pensado para capturar o peso invisível da rotina, o limite da paciência, o ponto em que o humano se dissolve no dever.

O roteiro de Max Porter recusa a ilusão da redenção. Não há vilões nem heróis, apenas pessoas cansadas tentando sobreviver dentro de um sistema que exige demais e devolve pouco. A escola funciona como metáfora da própria vida adulta: um espaço onde todos fingem ter o controle, quando na verdade ninguém tem.

No fim, Steve não quer consolar — quer confrontar. Ele nos faz sentir o que é segurar o mundo com as mãos trêmulas e continuar mesmo quando não há mais força. É um filme que emociona sem melodrama, que provoca sem discurso. Ao encarar o esgotamento como matéria humana, ele pergunta — com honestidade e dor — quem cuida de quem cuida.

Steve é menos um drama e mais um espelho. Um retrato de todos aqueles que seguem, mesmo quando já não sabem mais o por quê.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Invocação do Mal 4 - O Último Ritual

Por Isa Barretto

Encerrar uma franquia como Invocação do Mal é mais do que concluir uma história — é dar fim a um ciclo que ajudou a redefinir o terror contemporâneo.  

Dirigido por Michael Chaves, o quarto capítulo marca a despedida de Ed e Lorraine Warren, vividos com a habitual intensidade por Patrick Wilson e Vera Farmiga. Desta vez, o mal não habita apenas as casas de estranhos: ele invade o lar dos próprios investigadores, transformando o último caso em um confronto íntimo, onde fé e fragilidade se misturam.

O roteiro revisita os elementos que consagraram a franquia — o embate entre ciência e espiritualidade, o peso psicológico das investigações e o vínculo inabalável entre o casal. Mas há algo diferente aqui: o medo é mais humano, quase doméstico. Os Warren, que dedicaram a vida a salvar famílias assoladas por forças invisíveis, agora precisam lutar pela sua própria filha. O terror, que antes era missão, torna-se herança.

Michael Chaves demonstra segurança na condução. Ele troca o susto fácil pela tensão construída com precisão técnica — explorando o som, o enquadramento e o silêncio como recursos narrativos. A fotografia aposta em contrastes marcados: o claro-escuro traduz o limite entre o divino e o profano, enquanto a trilha sonora opera como uma extensão da angústia, sustentando a sensação de que algo maior se aproxima.

Ainda que previsível em estrutura, 'Invocação do Mal 4' é eficiente em propósito. O filme entende que o encerramento de uma saga não precisa surpreender, mas honrar o caminho percorrido. E faz isso com respeito — tanto à mitologia criada quanto ao público que acompanhou essa história por mais de uma década.

No fim, o que permanece não é o susto, mas o legado. O casal que passou a vida enfrentando o mal para proteger os outros agora luta para proteger o próprio sangue. E nessa inversão, o filme encontra sua força simbólica: a de mostrar que o amor — mesmo cercado de sombras — ainda é a arma mais poderosa contra o que não se pode compreender.

 

sábado, 18 de outubro de 2025

Na Netflix - CARAMELO


Por Isa Barretto

Há filmes que emocionam sem precisar de grandes gestos — Caramelo é um deles. Dirigido por Diego Freitas e protagonizado por Rafael Vitti, o longa encontra beleza no simples: um homem, um cachorro e o poder silencioso da convivência. O filme não tenta arrancar lágrimas; prefere tocar o espectador com leveza, mostrando que, às vezes, o afeto mais transformador nasce da presença discreta de quem apenas fica.

Pedro (Rafael Vitti) é um jovem chef que vive em ritmo acelerado, focado em chegar ao topo da carreira. Tudo muda quando um diagnóstico inesperado interrompe seus planos e o obriga a olhar a vida de outro jeito. Nesse momento, surge Caramelo, o vira-lata interpretado por Amendoim, que entra em cena não como um salvador, mas como um companheiro capaz de devolver sentido ao cotidiano. Entre os dois, nasce uma parceria verdadeira — sem heroísmo, apenas cumplicidade.

O roteiro, assinado por Diego Freitas, Rod Azevedo e Vitor Brandt, escolhe a sensibilidade em vez do drama. Não há exageros, apenas humanidade. Um passeio, uma refeição dividida, um olhar silencioso — tudo ganha peso emocional sem precisar de explicações. A direção de Freitas é segura e calorosa, conduzindo o espectador com o mesmo cuidado com que filma a amizade entre homem e cão.

A fotografia em tons suaves e a trilha sonora envolvente criam uma atmosfera acolhedora. O elenco de apoio — Carolina Ferraz, Arianne Botelho, Noemia Oliveira e Ademara Barros — reforça o tom íntimo da história, sem tirar o foco da relação central. Mesmo previsível em alguns momentos, Caramelo se destaca pela sinceridade com que trata temas como medo, recomeço, gratidão e amor — esse amor que não precisa curar, apenas estar presente.

No fim, o que fica é a paz de um encontro simples e verdadeiro. Caramelo é um filme que não promete muito — e justamente por isso entrega tanto. Ele chega de mansinho, como um amigo que se senta ao nosso lado, e nos lembra que, às vezes, viver é só isso: seguir em frente, com carinho, um passo de cada vez.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

​Luta de Classes


 Por Isa Barretto 

*com Spoiler

​"Luta de Classes", de Spike Lee, nos pega de surpresa desde a primeira cena. Com uma trilha sonora majestosa e imagens aéreas de uma Nova York cintilante, o filme parece prometer uma celebração à altura dos grandes clássicos de Hollywood. Mas o que se revela é uma ironia afiada. Por trás do espetáculo, Lee nos convida a uma crítica profunda, usando a própria indústria da música e do entretenimento como palco para expor contradições sociais, dilemas morais e as tensões raciais que moldam a sociedade americana.

​É nesse universo que somos apresentados a David King, interpretado por um impecável Denzel Washington. King é um magnata da música, um homem que construiu seu império capitalizando a cultura negra. Sua vida de luxo e poder vira de ponta-cabeça quando o filho de seu motorista é sequestrado por engano, confundido com seu próprio herdeiro. A partir daí, King se vê encurralado por um dilema que nem todo o seu dinheiro pode resolver: pagar um resgate milionário por um garoto que não é seu filho, ou proteger sua fortuna e viver com o peso de sua omissão.

​A genialidade de Lee está em pegar a clássica história de "Céu e Inferno", de Akira Kurosawa, e recriá-la na realidade da indústria musical dos Estados Unidos. Ele não simplesmente transpõe a trama, ele a enriquece com camadas de racismo estrutural e desigualdade social. O diretor usa a câmera para nos forçar a sentir o dilema junto com o protagonista. A repetição de cenas de diferentes ângulos transforma a escolha de King em uma obsessão para o espectador, como se a culpa fosse inescapável. É uma escolha formal que traduz visualmente o peso das decisões e nos coloca no centro da consciência do personagem.

​A trilha sonora do filme também merece destaque, funcionando como um verdadeiro comentário político. O rap, como voz das ruas, traz a resistência e a crítica, enquanto o soul e o jazz servem como ecos da tradição musical negra que foi apropriada pela indústria. 

​No epicentro de tudo isso, Denzel Washington entrega uma performance de precisão cirúrgica. Sua força não está em grandes gestos, mas em detalhes sutis: um olhar hesitante, um silêncio que diz mais que mil palavras, um corpo que treme sob o peso da escolha. Ele constrói um David King complexo, humano demais para ser simplesmente odiado, mas incômodo demais para ser admirado. É essa atuação que sustenta a complexidade moral do filme.

​No final das contas, Spike Lee nos lembra que a verdadeira luta não é apenas a do personagem contra o sequestrador. A cidade continua a brilhar, a música continua a tocar, mas o dilema de King se projeta sobre nós. O diretor, com maestria, nos força a encarar os abismos que a sociedade insiste em ignorar, mostrando que, por trás do brilho e do espetáculo, a batalha por uma sociedade mais justa continua.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025


 Por Isa Barretto
*com spoilers

O conceito de dois tornarem-se um único nunca foi tão literal quanto em 'Together' (2025), dirigido por Michael Shanks e estrelado por Dave Franco e Alison Brie. A velha promessa romântica da “metade da laranja” ganha aqui contornos de perturbação física e psicológica: não se trata mais de metáfora, mas de corpos que se fundem, de identidades que se diluem, de fronteiras que deixam de existir.

A história apresenta Tim e Millie, um casal em reconstrução, que decide recomeçar a vida no interior. Mas, numa exploração aparentemente banal, eles se deparam com uma força estranha, capaz de uni-los de forma visceral. O que começa como proximidade e cumplicidade logo se transforma em pesadelo: cada gesto de afeto cobra um preço, cada tentativa de autonomia desencadeia dor, e a promessa de nunca mais se separar deixa de soar poética para se tornar uma prisão. A presença do vizinho Jamie, vivido por Damon Herriman, intensifica a tensão — ele é sombra do futuro, espelho do que pode acontecer quando se entrega demais ao mito da fusão absoluta.

O incômodo em Together está justamente em como expõe o romance como um terreno de risco. Shanks aposta em efeitos práticos, texturas úmidas, closes sufocantes e sons que parecem grudar na pele do espectador. A câmera nos força a olhar o que não queremos ver: a intimidade transformada em sufocamento, o carinho confundindo-se com posse. Não há cortes que aliviem, não há romantização. O resultado é a sensação de sermos cúmplices de algo que preferiríamos negar.

Franco e Brie surpreendem ao subverter a própria química de casal. A entrega é intensa e desconfortável: ele transita entre vulnerabilidade e rigidez, criando um personagem imprevisível; ela sustenta o peso emocional, resistindo ao colapso até ser arrastada pela lógica dessa fusão impossível. O trabalho dos dois é corajoso, sem vaidade, disposto a explorar o feio e o doloroso. Já Damon Herriman acrescenta um peso inquietante: seu olhar e sua presença sugerem a ruína de quem já foi consumido por essa mesma lógica, funcionando como aviso em carne viva.

A inovação do longa está em inverter o clichê do amor como salvação. Ser “um só” não é sublime, mas monstruoso. O toque que deveria curar aprisiona; a promessa de inseparabilidade revela-se pacto com o abismo. Esse movimento vai além do terror físico: é comentário incômodo sobre co-dependência, ilusões que sustentam relações e sobre como o medo da solidão pode corroer aquilo que temos de mais humano — a possibilidade de escolha.

No fim, 'Together' não oferece catarse. O que entrega é uma beleza amarga, quase deformada, ao revelar que o amor só sobrevive quando aceita a distância, o espaço e a alteridade. A fantasia de fusão, tão celebrada nas histórias românticas, surge aqui como o verdadeiro horror. É por isso que o filme permanece colado — não apenas na memória, mas na pele — como um lembrete incômodo de que o extraordinário não está em desaparecer no outro, mas em sustentar o encontro permanecendo dois, inteiros!

terça-feira, 16 de setembro de 2025

A Vida de Chuck


Por Isa Barretto 

'A Vida de Chuck' é um filme que se desenha de trás para frente, como quem, diante da morte, decide revisitar cada instante com a clareza do que realmente importa. Mike Flanagan, ao adaptar Stephen King, constrói uma narrativa que não se apoia em sustos ou efeitos, mas naquilo que é mais humano: a consciência de que somos finitos e, justamente por isso, podemos ser grandiosos. O filme começa pelo fim, pelo apagamento do mundo e da vida, e daí regressa à infância do protagonista, revelando não apenas um homem, mas a soma de seus gestos, de seus afetos e de sua escolha em viver de modo extraordinário diante do ordinário.

Tom Hiddleston dá corpo a um Chuck adulto que não se conforma em apenas existir. Ele escolhe encantar, escolhe dançar no meio da rua quando todos se recolhem, escolhe agradecer mesmo quando nada parece restar. E é nessa decisão de ser luminoso no escuro, de criar beleza em meio à ruína, que reside a grandeza do personagem. O extraordinário não surge de poderes sobrenaturais ou de feitos impossíveis, mas da coragem de transformar o banal em epifania, de fazer da própria vida um palco no qual multidões podem se emocionar.

A direção de Flanagan nos lembra, com ritmo contemplativo e imagens carregadas de melancolia, que cada gesto simples é imenso quando visto da perspectiva do fim. O avô vivido por Mark Hamill amplia essa dimensão, ao trazer nas entrelinhas a dor, o amor e os vínculos que moldam quem somos. Há poesia em cada detalhe, na forma como o tempo é tecido ao contrário, como se o filme quisesse nos dizer que só quando olhamos para trás compreendemos a delicadeza de cada camada da existência.

No fundo, 'A Vida de Chuck' é menos sobre a morte e mais sobre a escolha de viver de modo inteiro, de ser maravilhoso diante da banalidade, de transformar o ciclo da vida em um espetáculo que merece aplausos. O filme nos lembra que todos carregamos a possibilidade de ser lembrados não pelo que acumulamos, mas pelo que conseguimos transmitir: encantamento, generosidade, humanidade. E quando o fim chega — como chegará para todos — resta a certeza de que o extraordinário aconteceu, porque alguém decidiu enxergá-lo e criá-lo no meio da vida comum.

sábado, 6 de setembro de 2025

Fórmula 1


Por Isa Barretto

As luzes vermelhas se apagam, as bandeiras baixam, e o coração do público dispara junto ao rugido dos motores. Mas aqui não é apenas corrida: é cinema em estado puro de adrenalina. 'Fórmula 1' (2025), dirigido por Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick), transforma a velocidade em espetáculo visual e sonoro, colocando o espectador dentro do cockpit, onde cada curva parece uma sentença e cada ultrapassagem, um ato de coragem.

O longa acompanha Brad Pitt como Sonny Hayes, um veterano chamado de volta às pistas para guiar o jovem talento vivido por Damson Idris. A dupla é sustentada por um elenco de peso: Javier Bardem dá corpo ao chefe de equipe, Kerry Condon brilha como a engenheira-chefe, e nomes como Tobias Menzies, Sarah Niles e Kim Bodnia completam esse mosaico de personagens que carregam o drama para além da pista.

O roteiro não se contenta em mostrar carros correndo. Ele fala de legado, de escolhas e do impacto do tempo. Kosinski conduz a narrativa com equilíbrio: deixa o barulho ensurdecedor dos motores falar, mas também nos oferece o silêncio dos boxes e a respiração contida do piloto antes da largada. É nesse contraste que o filme encontra sua força.

Tecnicamente, é um espetáculo. O som dos carros não é apenas ruído — é música, quase um cântico ritual. A fotografia ousada nos joga no meio da ação, fazendo sentir a vibração da pista no corpo. Tudo isso cria uma experiência que não se limita a impressionar, mas que busca emoção genuína.

E quando vemos arquibancadas lotadas, multidões que vibram a cada curva, é impossível não pensar nas arenas da Roma Antiga, quando cidadãos se reuniam para assistir a heróis colocarem a vida em risco diante do público. A Fórmula 1 herda esse espírito: um espetáculo moderno que mistura risco, glória e catarse coletiva.

Para os fãs, essa é uma experiência visceral. Os pilotos surgem como semideuses que desafiam a morte em busca de eternidade. E, para nós brasileiros, ouvir o eco distante do nome Ayrton Senna é reencontrar um herói que permanece vivo na memória, um mito que atravessa gerações.

No fim, 'Fórmula 1' não é apenas sobre carros em alta velocidade. É sobre superação, coragem, sacrifício e a beleza de testemunhar homens que decidiram viver como lendas. Quando os motores rugem e os "deuses" correm, nós acreditamos de novo no impossível.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025)

 

Por Isa Barretto

Quem não gelou ao ver a figura do pescador de capa de chuva e gancho em punho, transformando a culpa em pesadelo coletivo? Essa imagem fez de Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997), de Jim Gillespie, um clássico imediato dos slashers dos anos 90. Com Jennifer Love Hewitt, Sarah Michelle Gellar, Freddie Prinze Jr. e Ryan Phillippe, o filme não só surfou na onda de Pânico como consolidou o vilão como ícone de uma geração.

A sequência, Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1998), de Danny Cannon, ainda segurava a mão no terror adolescente, mesmo com sinais de desgaste narrativo. O público aceitava: afinal, era verão, tinha suspense, tinha gancho, e tinha Jennifer gritando de novo.

Mas em 2025, o que a diretora Jennifer Kaytin Robinson entrega é quase uma piada de mau gosto. Trouxeram de volta Jennifer Love Hewitt e Freddie Prinze Jr. — e aí entra a pergunta: a que preço? O herói improvável das duas primeiras versões, que quase morreu várias vezes para salvar Julie, agora é transformado em… assassino? Sem motivação, sem arco, sem lógica. Que psicologia é essa? Que Freud é esse que justifica virar psicopata do nada?

Enquanto isso, o novo elenco — Madelyn Cline, Chase Sui Wonders, Jonah Hauer-King, Tyriq Withers, Sarah Pidgeon, Billy Campbell e Gabbriette Bechtel — parece ensaiar para um High School Musical versão terror, mas sem coreografia. Atuam como se a morte fosse apenas mais um teste de elenco para série adolescente da Netflix.

Tecnicamente, o filme também tropeça. A fotografia é clara demais para um terror que deveria ser sombrio. A trilha é genérica, incapaz de criar tensão. Os sustos são tão previsíveis que chegam a ser quase didáticos: o público não se assusta, apenas marca ponto no bingo do clichê.

E o pior: a “grande reviravolta” da vítima que vira vilão destrói o DNA da franquia. O original girava em torno de culpa, segredo e paranoia. Aqui, tudo se resume a um twist mal feito, que mata a coerência e sepulta a memória dos filmes anteriores. O pescador com gancho já não assusta — virou objeto de cena, quase decorativo.

Ou seja: o novo Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado não é apenas ruim. Ele é uma aula involuntária de como desrespeitar uma franquia e ainda tentar vender nostalgia como justificativa. No fim, só resta rir, porque alguns verões deveriam ser lembrados… e outros quem sabe deveriam ser enterrados de vez.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Amores Materialistas


Por Isa Barretto

Qual é o meu valor no mercado dos encontros? Depende da minha altura, da cor dos meus olhos, do tom do meu cabelo? 'Amores Materialistas' parte dessa provocação: a ideia de que a aparência física e o pacote social que carregamos respondem por 80% das nossas chances de conquistar o “par perfeito”. Mas será que chegamos mesmo a esse ponto? Ou estamos apenas tentando transformar o amor em mais um produto a ser vendido, avaliado e comparado?

Dirigido por Celine Song, o filme acompanha Lucy (Dakota Johnson), uma casamenteira de sucesso que organiza encontros como quem monta uma prateleira de supermercado: altura, renda, estilo de vida e até carisma entram na conta. Só que, fora do trabalho, ela própria acaba presa ao mesmo jogo, dividida entre dois homens que parecem resumir esse dilema: o milionário carismático (Pedro Pascal), que representa estabilidade e status, e o ex-namorado ator (Chris Evans), cheio de falhas, mas carregando a imprevisibilidade do desejo.

Logo no início do filme, uma cena simples já dá o tom: um homem na pré-história corteja uma mulher oferecendo um presente. É apenas um buquê de flores, seguido de uma aliança feita com a mesma flor — mas o importante é o gesto, que carrega um simbolismo profundo: a promessa, o desejo de unir-se a alguém. A partir dali, o filme deixa claro que, por mais que o tempo mude, por mais que os aplicativos e as métricas dominem o “mercado amoroso”, seguimos movidos por símbolos antigos. Decidir casar, se unir, estar com alguém, ainda é menos sobre cálculos e mais sobre a necessidade de compartilhar a vida. Afinal, de nada adianta ter tudo se não existe com quem dividir.

É nesse contraste que a comédia romântica encontra sua força. Porque, entre risadas e diálogos ácidos, o filme cutuca uma ferida real: quantas vezes nós também já reduzimos alguém a um detalhe físico, a uma foto de perfil ou ao número na conta bancária? O desconforto é inevitável, porque Amores Materialistas não fala apenas sobre Lucy, mas sobre todos nós tentando equilibrar amor e conveniência em um mundo que insiste em transformar sentimentos em transações.

O mérito de Song é mostrar que o amor não é fórmula. Não existe planilha capaz de prever os caminhos do coração. Lucy não é fútil, seus pretendentes não são rascunhos de arquétipos: são pessoas tentando amar em meio ao ruído da modernidade. Por isso, o filme diverte, mas também incomoda. Ele nos lembra que, embora possamos criar filtros e critérios, sempre haverá algo de imponderável nos sentimentos — e é justamente isso que os torna reais.

No fim, 'Amores Materialistas' é sobre essa ironia: podemos até tentar brincar de mercado, mas o coração nunca se deixa precificar. Antoine de Saint-Exupéry em 'O Pequeno Príncipe': “o essencial é invisível aos olhos.”

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Na Netflix - A Noite Sempre Chega


Por Isa Barretto

"Situações extremas exigem medidas desesperadas". Essa máxima não poderia combinar tanto em um filme como em 'A Noite Sempre' Chega (Night Always Comes), dirigido por Benjamin Caron e protagonizado por Vanessa Kirby, que entrega uma atuação intensa e vulnerável. O longa mergulha na escuridão da condição humana ao colocar sua personagem diante de escolhas impossíveis, revelando como a necessidade pode corroer valores e redefinir os limites da sobrevivência.

A trama acompanha uma mulher que, durante uma única noite, precisa levantar o dinheiro necessário para garantir seu futuro, o da mãe e do irmão. O que começa como uma tentativa de resolver uma urgência financeira logo se transforma em uma corrida contra o tempo, marcada por negociações perigosas, dilemas éticos e o peso psicológico de cada decisão. A escolha de Kirby intensifica ainda mais o contraste: loira, magra e com uma beleza marcante, ela destoa do perfil mais comum daqueles que carregam na pele as marcas da desigualdade — e justamente por isso sua presença ressalta o abismo entre aparência e realidade social.

Mas a força do filme não está apenas na urgência material. Quando não se tem nada além das memórias, até onde somos capazes de ir para mantê-las? Para Lynette, a casa não era só paredes e telhado: era a lembrança de um tempo de pureza, de uma infância em que podia ser apenas uma criança antes que os traumas a marcassem. Essa ligação afetiva transforma a busca por dinheiro em algo ainda mais doloroso, pois cada obstáculo não representa apenas o risco de perder um imóvel, mas de ver desmoronar a última lembrança de felicidade que lhe restava.

A protagonista não é nem heroína nem vilã: é uma mulher comum, atravessada por urgências materiais, traumas e falta de opções. O roteiro constrói sua jornada como uma espiral: cada decisão a empurra para um corredor ainda mais estreito, onde a saída parece sempre exigir um preço maior do que o anterior. Essa arquitetura dramática sustenta a tensão e funciona como metáfora amarga: quando o jogo é desigual, até as rotas de fuga já vêm sabotadas de origem.

A cidade noturna assume papel de antagonista. As ruas são vazias e os interiores claustrofóbicos — tudo parece conspirar para aumentar a fricção moral a cada encontro. A fotografia investe em contrastes que transformam a noite em uma presença não só ativa, mas opressiva, enquanto a montagem mantém o pulso acelerado sem perder o fôlego emocional. Kirby ancora o filme com um trabalho de corpo contido e olhar em brasa: ela não “explica” a personagem; ela a encarna.

Como comentário social, o longa prefere o desconforto ao panfleto. Em vez de discursos, oferece circunstâncias em que a necessidade reconfigura a ética, revelando a hipocrisia de sistemas que fabricam o desespero e depois punem quem tenta sobreviver a ele. O incômodo não é só deliberado — é necessário.

Ao final, fica uma sensação áspera: quando as opções se reduzem a nada, qualquer gesto de vida soa como crime. 'A Noite Sempre Chega' não pede absolvição; exige que olhemos para a sombra — e reconheçamos ali o que há de humano nela.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Extermínio - A Evolução

Por Isa Barretto

Quando pensamos em filmes de zumbis, logo vem à mente o caos absoluto: sobreviventes em fuga, perseguições incessantes e um espetáculo de sangue. O gênero se consagrou nesse frenesi de destruição, mas 'Extermínio: A Evolução', dirigido por Danny Boyle, segue por outro caminho. Sem ignorar a brutalidade, o filme aposta em uma abordagem rara: íntima, intensa e profundamente humana. O medo está presente, mas é o afeto que guia a trama — e é no meio do horror que o amor revela sua força.

No centro dessa história está Spike, interpretado com emoção por Alfie Williams. À primeira vista frágil e inseguro, o garoto se transforma em símbolo de resistência. Ele atravessa a floresta com a mãe debilitada (Jodie Comer) em busca do último médico sobrevivente, vivido por Ralph Fiennes. A cada passo, Spike carrega o medo, mas também a coragem de quem ama. Aaron Taylor-Johnson completa a família no papel do pai — rígido por fora, mas com fissuras de humanidade. Visto por Spike como um herói, ele perde esse posto ao falhar diante da mãe, e essa quebra redefine para sempre a relação entre pai e filho.

O pano de fundo é tão inquietante quanto os dramas pessoais. O vírus evolui, criando diferentes tipos de infectados — rastejantes e alphas brutais. Já os humanos, acuados pela incerteza, se dividem em facções de sobrevivência com regras duras, onde qualquer contato externo é visto como ameaça. O medo da contaminação não só distancia os corpos, mas também fragmenta a convivência.

Ralph Fiennes dá vida a um médico recluso e pragmático — não é salvador nem vilão. Ele oferece o cuidado possível, com humanidade e limites claros, sem prometer milagres. Sua presença sustenta a tensão na medida certa e reforça sua versatilidade como ator.

O roteiro de Boyle e Alex Garland mantém o espectador em uma corda bamba: a esperança surge, mas logo se dissolve. A cada nova virada, parece haver uma chance de futuro — até que ela é arrancada, de repente diante do espectador. Essa oscilação entre a expectativa e o desespero torna a jornada de Spike ainda mais intensa.

A fotografia de Anthony Dod Mantle reforça esse contraste: florestas verdes que de repente se tornam palco de caos, como se a natureza também estivesse em colapso. Em vários momentos, a câmera se aproxima da simplicidade de um documentário, ampliando esse desconforto. A trilha de John Murphy acompanha essa cadência, alternando entre o silêncio contido e explosões sonoras que remetem a gritos, acelerando o coração e transformando a música em parte essencial da narrativa.

'Extermínio: A Evolução' se diferencia justamente por unir o terror físico ao drama humano. O horror não está só nas ruas devastadas, mas também no corpo que muda e na sociedade que se fragmenta. Boyle entrega mais do que um filme de zumbis: ele propõe um retrato direto da nossa natureza, em que medo e esperança se alternam como forças invisíveis.

Agora a pergunta que não quer calar : se o vírus continua a evoluir e a sociedade a se fragmentar, o que nos resta afinal: a esperança de preservar nossa essência ou a certeza de que também estamos destinados a ruir?