quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Aniversariantes Memoráveis – 81 anos de CIDADÃO KANE

Por Rafael Morais

Uma das maiores e mais complexas obras-primas do Cinema.

Considerado pela maioria dos estudiosos e cinéfilos de todo o mundo como o melhor filme já realizado, Cidadão Kane é um marco na história da sétima arte, seja pelas técnicas de filmagem, seja pela genialidade do jovem Orson Welles, que sem medir esforços e munido de muita coragem, roteirizou, dirigiu e atuou no longa.

Não dá pra falar desse filme sem levar em conta a época de sua realização. O ano era 1941 e um gênio de 20 e poucos anos, chamado Orson Welles, "cobrou o escanteio e ainda marcou de cabeça", isto é, produziu, escreveu, atuou e dirigiu Cidadão Kane de forma icônica. Se hoje em dia tratar temas polêmicos significa mexer na ferida, imaginem o "burburinho" causado pelo jovem cineasta ao expor toda a sujeira que há por trás do sistema jornalístico mundial. E foi dessa forma que aconteceu. O estopim para o circo pegar fogo já estava aceso e a década de 40 parecia não estar preparada para tanta polêmica e revolução, já que eram tempos tradicionalistas e cheios de regras de conduta.

A história, baseada em acontecimentos reais, conta a ascensão e queda na trajetória de um magnata da comunicação Charles Foster Kane, um americano visionário, ambicioso e austero que consegue fama, dinheiro e polêmicas/problemas durante a sua carreira. Apesar de Welles nunca ter assumido publicamente, o longa é baseado na vida do milionário Willian Randolph Hearst.    

Nas primeiras cenas, já percebemos a qualidade da película, quando o movimento da câmera nos leva da entrada de um castelo até uma janela (takes inovadores para a época) e, através de uma transição, somos levados para dentro desse castelo - outro recurso técnico executado brilhantemente - onde vemos uma pessoa segurando uma bola, dizendo "Rosebud". Logo após, ele a solta, entra uma enfermeira no aposento e constatamos que ele está morto.

Tem-se início um filme-documentário que é contado de maneira cronologicamente inversa. A partir daí, descobrimos que quem acabara de falecer é o importante Charles Foster Kane e, para os realizadores do documentário, era de capital relevância adicionar um mistério àquela produção bibliográfica. Para tanto, colocaram jornalistas em campo em busca de uma resposta que será a espinha dorsal do filme: o que significaria “ROSEBUD", a última palavra, o derradeiro fôlego gasto pelo poderoso Kane?

A genialidade de Welles emerge com essa simples palavra, sabiamente a inserção dessa dúvida atrairia não só a atenção do público, como também traçaria um paralelo imprescindível com a história do personagem principal.

Remetendo-nos à infância de Kane, o enredo, inicialmente, pretende apresentar o conturbado e triste passado daquele que viria a ser um importante homem, mas que na infância não teve vida fácil, sofrendo como poucos até ser adotado (na verdade, doado como um objeto) por um milionário. Inclusive a cena em que os pais do pequeno Kane resolvem entregá-lo a um magnata é de uma delicadeza e densidade sem igual.

A câmera inquieta e reveladora acompanha subitamente os dois vértices da realidade. De um lado, uma criança inocente brinca em seu balanço, demonstrando a felicidade de estar em seu lar, que mesmo humilde, podia chamar de seu. No outro ponto, pela janela da singela casa, os seus pais negociam a sua "doação", tudo isso com uma tomada simplesmente perfeita, que perpassa o balançar de uma criança contrapondo a dura realidade que está por vir. Emocionante!

A jornada para descobrir o real significado daquele intrigante brado – “Rosebud!” - apenas serviria como pano de fundo para a história, já que o desenvolvimento dos personagens era a prioridade do argumento e observar o quão um ser humano podia chegar era o primordial. “Crescer e crescer”, essa virou a meta do egoísta Kane, mesmo que para tanto tivesse de jogar sujo, manipular e criar notícias em nome da mídia, do consumo e da popularidade. O seu jornal logo passou a ser o mais influente, mas nem por isso o de maior credibilidade.

De fato, o aspecto técnico da produção é o que há de melhor nessa obra. E a fotografia é outro fator importantíssimo para o filme. Ao contrário do Expressionismo Alemão, que utilizava das sombras para tornar o protagonista parte do cenário, Gregg Toland (o fotógrafo do filme) utilizou o jogo de luz e sombras para dar o clima dark que queria. Sempre que Kane ia revelando seu lado obscuro, fazendo suas peripécias egocêntricas, a sombra dominava o cenário, geralmente o encobrindo. O enquadramento foca tanto os primeiros planos como os segundos, sempre jogando com isso, diversas vezes mostrando o teto dos cenários, brincando com o tamanho aparente e seus egos no momento.

Todavia, deixando de lado o plano técnico do longa, o que mais me chamou a atenção foi a maneira perspicaz como o filme é contado, que nos faz refletir o verdadeiro sentido da vida e o quão passageira ela é. Parafraseando Maximmus – personagem vivido por Russel Crowe em Gladiador - " O que fazemos em vida ecoa pela eternidade".

Por fim, pode ser que nem todos gostem tanto assim da história de “Cidadão Kane”, mas, analisando toda a sua importância, a obra é impecável. Um grande clássico do Cinema que deve ser assistido por todos, não importa a idade, o sexo, os valores humanos. Simplesmente inesquecível: um filme atemporal que estará vivo facilmente por outros tantos anos.

*Avaliação: 5,0 Pipocas + 5,0 Rapaduras = 10,0.


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Dica de Streaming [Star Plus e Prime Video] - AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS


Por Rafael Morais

Brad Pitt vive o astronauta Roy McBride, um sujeito compenetrado no que faz, mas que tem pela frente a missão mais difícil de sua vida: ir aos confins do universo em busca de respostas e do paradeiro de seu pai desaparecido, Clifford McBride (Tommy Lee Jones) - um cientista renegado que pode representar uma ameaça à humanidade.

Em que pese esta premissa soar pretensiosa demais, o roteiro de Ethan Groos, em parceria com o também diretor James Gray (do ótimo "Z: A Cidade Perdida"), trata logo de colocar os personagens e as situações devidamente com os "pés no chão". Dono de um visual arrebatador, estamos diante de um drama, em essência, envolto numa roupagem de ficção científica, não se engane. As respostas mais complicadas para questões envolvendo a viabilidade da viagem espacial, a física, não são respondidas, e nem é o foco aqui. O turismo espacial já é uma realidade, e ponto. Não importa o desgaste devido aos enormes deslocamentos, a alimentação, o preparo físico (a não ser o psicológico, que ganha importância na trama), tampouco o peso da idade. Nada disso tem vez em Ad Astra.

Existencialista, o filme faz inúmeros questionamentos inerentes ao ser humano, como a obsessão pelo conhecimento, pelo desbravamento, o preço que se paga pelas escolhas, o misto de frustração e orgulho por detrás de um projeto de vida que "não deu certo"; enfim, as consequências desaguarão num desfecho mais intimista do que se imaginava, mas não menos belo.

Assim, a divisão dos atos em “Ad Astra” é bem delineada. Enquanto o primeiro desenvolve o conflito e nos aproxima do protagonista, onde enxergamos tudo pela sua perspectiva; o segundo flerta com filmes como Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013) e Interestelar (Christopher Nolan, 2014), chegando a surpreender o espectador ao entregar momentos de tensão e até ação.

Mas é no derradeiro ato que o longa referencia Solaris (Andrei Tarkovski, 1971) ao focar na solidão do "herói" frente à imensidão da galáxia. A poeira do universo é palpável, literalmente, rumo a uma jornada introspectiva. Neste sentido, a trilha sonora de Max Ritcher se harmoniza com a proposta da obra ao arranjar melodias com tons épicos, mesclando notas melancólicas. Um trabalho musical que se aproxima do mestre Hans Zimmer.

E é justamente por ser contemplativo que o filme vem sendo trucidado por muitos. "Barrigada", "chato", "entediante" são alguns dos adjetivos. Na verdade, o ritmo mais arrastado, no último terço, é proposital e condizente com a realidade. A decupagem menos dinâmica se coaduna com a digressão presenciada em tela. Perceba que o protagonista terá que percorrer, por exemplo, setenta e nove dias entre alguns trechos. Se isso passasse num estalar de dedos não sentiríamos o impacto. O público é testemunha da peregrinação do astronauta com um propósito muito mais pessoal do que altruísta.

Por fim, o fato é que não nutrir expectativa alguma por um filme, muito menos não assistir a um trailer sequer (que foi o meu caso) pode tornar a obra uma grata surpresa!

*Avaliação: 3,0 Pipocas + 5,0 Rapaduras = 8,0.


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Nos Cinemas - ADÃO NEGRO


Por Rafael Morais

Quase 5.000 anos após ter sido agraciado com os poderes onipotentes dos deuses antigos - e aprisionado logo depois - Adão Negro (Dwayne Johnson) é libertado de sua tumba terrena, pronto para levar ao mundo moderno sua forma singular de justiça. Essa é a sinopse do novo filme do universo DC nos cinemas.

Dwayne Johnson estrela Adão Negro ao lado de Aldis Hodge como Gavião Negro; Noah Centineo no papel de Esmaga-Átomo; Sarah Shahi como Adrianna (uma espécie de "cospobre" de Tomb Raider); Marwan Kenzari no papel de Ishmael; Quintessa Swindell como Ciclone; e Pierce Brosnan como Senhor Destino. Ufa! Mas é isso mesmo, apesar do filme se chamar Adão Negro, poderiam ter sido mais sinceros e intitulado de "A Sociedade da Justiça x The Rock".

Assim, confesso que o mais difícil de escrever essa resenha é realmente se lembrar do filme. Minha memória, que já não anda lá essas coisas, fica turva ao tentar recordar alguma cena relevante que seja. Tudo é muito genérico e soa até bollywoodiano, por vezes, sobretudo o terceiro ato banhado por uma fotografia saturada em dourado. WTF! Confusão de cores, ideias e muita porrada! É como se "Hobbs & Shaw" encontrasse "Velozes e Furiosos" e ambos estivessem chapados.

A direção de Jaume Collet-Serra (que se você der um Google e puxar o currículo do cineasta vai encontrar produções ordinárias - com exceção de "A Órfã") é operante e se destaca na condução das sequências de ação. O problema é o estilo cafona que o cara adota em alguns momentos (o que é aquela câmera lenta utilizada nas rabiçacas coloridas e esfumaçadas da Ciclone?!).

No limite da vergonha alheia, "Black Adam" tem como único ponto positivo o que "Shazam" fez com maestria: ele tenta, e em certos pontos até consegue, dar coração ao longa. Os personagens transbordam sentimento e entrega, não tem como negar. Incluindo o carismático protagonista. Sim, é a mesma cara e atuação que toda a filmografia do Dwayne Jhonson, mas aqui com mais músculos aloprados que mal cabem na roupa. Sério, o trapézio do cara salta do uniforme. Definitivamente, ele não precisa de enchimento no figurino.

Outro destaque fica por conta de uma breve crítica ao modus operandi do exército americano, na figura da Sociedade da Justiça, ao "invadir" terras estranhas em "nome da paz" mundial. A abordagem de um povo sofrido que precisa de um herói, mas na verdade é um anti-herói é que deve fazer o “trabalho sujo” para resolver a parada (o famoso "é o que tem pra hoje") deixa uma mensagem interessante no ar.

Levando em conta que estou me cansando de filmes de super-herói, esta é uma obra que tem o potencial de divertir um público mais despretensioso e ainda ávido pelo gênero.

Por fim, temos um filme que “pratica apneia” ao quase não respirar em suas duas horas de projeção. Recheado de ação desenfreada e muitos clichês, "Adão Negro" é uma típica produção que tem sua razão de existir na empolgante cena pós-crédito. Neste aspecto negativo - ao alimentar o hype da comunidade com um cliffhanger descarado - a DC se aproxima da Marvel nos cinemas.

* Avaliação: 3,0 Pipocas + 2,0 Rapaduras = 5,0.


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Dica Streaming [Apple TV+] - AO CAIR DA NOITE


Por Rafael Morais

Quando a família do patriarca Paul (Joel Edgerton) se vê acuada em sua própria casa, em meio a uma densa floresta, tentando sobreviver a uma misteriosa pandemia, temos a sinopse de “Ao Cair da Noite”: nova produção do estúdio A24, o mesmo criador do excelente “A Bruxa”. 

Dirigido e roteirizado com maestria por Trey Edward Shults, este thriller psicológico está mais preocupado com a narrativa voltada para a tensão entre os personagens do que propriamente com o grafismo das cenas, muito menos com a apresentação de um “monstro” para satisfazer uma plateia sedenta.

Portanto, se você gosta de jump scares gratuitos (aqueles sustos que te fazem pular), aqui não é o seu lugar. Na verdade, ao invés destes pulos, o longa vai te deixar na ponta da cadeira tamanho o clima de inquietação que a película desenvolve, de maneira crescente, no decorrer da trama.

Desta forma, a obra também não é recomendável ao tipo de público que espera reviravoltas, explicações e resoluções para os conflitos propostos. Ponto negativo para o marketing do filme que tenta vender - através de trailers e material de campanha - um terror convencional, dado o aparente clichê de sua premissa, mas que em contrapartida acaba entregando um excepcional suspense. 

Voltando à família enclausurada, além de Paul (um sujeito paranoico, metódico e extremamente protetor), temos o seu filho Travis (Kelvin Harrison Jr.), um jovem de 17 anos que está perdendo a melhor fase de sua vida enfurnado em um local que não pode sair; além de sua mãe Sarah (Carmen Ejogo), uma mulher que contrapõe com carinho o jeitão rústico do marido, mas que pode esconder uma frieza na tomada de decisões nos momentos mais delicados. Assim, está formado o cenário “ideal” para os acontecimentos que levarão ao clímax, sendo a chegada de uma nova família o estopim dos conflitos. Mostrando a dificuldade de convivência em grupo, cada um com o seu pensamento, modo e costume, Edward Shults deslancha a película na chegada de Will (Christopher Abbott), sua esposa Kim (Riley Keough) e Andrew (Griffin Robert Faulkner), o filhinho do casal. 

Neste panorama, contando com um subvilão silencioso e invisível, os protagonistas, cercados de desesperança e desconfiança no próximo, terão que lidar com situações extremas para se manterem vivos. Estamos numa distopia pós-apocalíptica onde um vírus letal corrói o ser humano, sendo este o principal medo dos que ainda sobrevivem. Repare nos pesadelos de Travis que permeiam o filme. Todos dizem respeito aos seus principais temores, o que acaba causando uma incrível rima visual com o desfecho. Notável também a concepção dos ambientes fechados, escuros e sem vida, servindo para aumentar a sensação de claustrofobia. Não menos harmoniosas, as câmeras do jovem diretor sempre transitam lentamente dentro da casa, abusando dos close-ups para encarcerar ainda mais aquelas pessoas. 

A fotografia de Drew Daniels, por sua vez, é carregada no dark, nas sombras e no breu completo, demonstrando não só o estado de espírito dos seres ali representados, como o ambiente sem vida e desolador em que vivem. Tenebroso! Perceba que em contraponto à escuridão que banha o lugar, surge uma destoante porta pintada em vermelho - o único meio de entrada e saída da residência - cor esta que denota urgência/perigo com o que pode estar por detrás ou a partir dela. 

Habilidoso ao oferecer diversas leituras/interpretações, sem amarrar pontas soltas, este “Ao Cair da Noite” se revela como um eficiente estudo de narrativa se destacando de diversas produções com a mesma temática – e a maioria delas peca pela megalomania - dentro de um microcosmo, em pequena escala, sem grandes ambições. Ao final, saímos da sala de cinema com a sensação de angústia e desnorteamento ao constatar que da porta vermelha pra dentro (simbologia em forma de autoanálise) é que mora o real perigo, o inerente à natureza humana.

* Avaliação: 4,5 pipocas + 5,0 rapaduras = nota 9,5. 

terça-feira, 4 de outubro de 2022

08 ANOS SEM EDUARDO COUTINHO

Por Rafael Morais

Quando Eduardo Coutinho faleceu em 02 de fevereiro de 2014, o Cinema Nacional perdia o seu maior documentarista. Obras emblemáticas como "Cabra Marcado Para Morrer" e "Edifício Master", entre tantas outras, fazem parte do legado deixado pelo genial cineasta.

Apresento, a quem ainda não teve o prazer de conhecer, os melhores documentários dirigidos, "roteirizados" e comandados pelo mestre Coutinho. Inspiradores, estes longas nos remetem à condição da natureza humana, na sua mais profunda camada, onde os protagonistas são pessoas "comuns", como qualquer um de nós.

O quão espetacular pode ser pegar uma câmera, apertar o REC e gravar uma boa história de um ilustre desconhecido?! Para Coutinho, o ato de ser ouvido é uma das mais profundas necessidades de um ser humano, pois, ser ouvido é ser legitimado. E durante uma de suas últimas entrevistas concedidas, ele lança uma questão: "Quem, hoje em dia, está preocupado em legitimar o outro? Cada um está preocupado em se legitimar".

Outro ponto interessante sobre o gênero documentário, é o script. Ficção nenhuma seria capaz de ser mais fantástica, complexa e, ao mesmo tempo, simples como a vida de uma pessoa. A jornada de um ser humano pode reservar plot twist’s inimagináveis para qualquer roteiro.  

Portanto, seguem algumas dicas de docs. onde os personagens do dia a dia têm muito a dizer. Se emocione com as obras de Eduardo Coutinho, assim como sempre acontece comigo ao revê-las.

·       Cabra Marcado para Morrer (1984)

·       O Fio da Memória (1991)

·       Boca de Lixo (1993)

·       Santo Forte (1999)

·       Edifício Master (2002) 

·       O Fim e o Princípio (2005) 

·       Jogo de Cena (2007) 

·       Um Dia na Vida (2010) 

·       As Canções (2011)