O que sobra quando o sonho se realiza?Essa é a pergunta que atravessa Jay Kelly, novo filme de Noah Baumbach. A narrativa acompanha um ator consagrado em viagem pela Europa ao lado de sua equipe e de seu empresário. À primeira vista, tudo parece em ordem: a carreira está consolidada, o reconhecimento existe e os compromissos se acumulam. Com o avanço da história, no entanto, fica evidente que esse percurso também deixou vazios difíceis de ignorar.
George Clooney constrói um personagem que já não precisa provar nada ao mundo, mas que começa a sentir o peso das decisões que o trouxeram até ali. A fama, distante de qualquer glamour, aparece como rotina — hotéis, reuniões e deslocamentos constantes — criando a sensação de movimento contínuo, mas pouca conexão real com o que, de fato, importa.
Nesse cenário, o empresário vivido por Adam Sandler surge como um contraponto essencial. É ele quem mantém tudo funcionando, organiza agendas e sustenta a lógica da indústria. Sua presença deixa claro que muitas escolhas não são feitas por falta de afeto, mas por prioridade. E, nesse processo, relações acabam sendo adiadas, ajustadas ou reduzidas para que o projeto maior continue avançando.
Essas ausências ganham densidade com os personagens de Laura Dern e Billy Crudup, que trazem à tona vínculos interrompidos e diálogos carregados de não ditos. Baumbach evita confrontos diretos e aposta em conversas contidas, pausas prolongadas e silêncios que dizem mais do que longas explicações. É nesses espaços que o filme encontra sua força.
A frase de Sylvia Plath parece ecoar ao longo da narrativa:
“É uma responsabilidade infernal ser você mesmo; é muito mais fácil ser outra pessoa ou ninguém.”
Sustentar uma identidade construída ao longo dos anos exige esforço — especialmente quando ela já não reflete, por completo, quem se é no presente.
Com um ritmo calmo e observacional, Jay Kelly expõe as consequências das escolhas feitas e confia ao espectador a tarefa de tirar suas próprias conclusões. Ao final, permanece a constatação de que toda decisão abre caminhos — e fecha outros — e que compreender o custo dessas escolhas, muitas vezes, acontece tarde demais.
