Por Isa Barretto
E se a paranoia não fosse exatamente um desvio, mas apenas um reflexo exagerado do mundo em que vivemos?
Em Bugonia, Yorgos Lanthimos retorna ao terreno que domina como poucos: o desconforto. Inspirado no filme sul-coreano Jigureul Jikyeora!, o diretor constrói uma narrativa que mistura absurdo, humor ácido e crítica social para expor uma sociedade cada vez mais desconectada da realidade — e perigosamente convencida de suas próprias certezas.
A história acompanha dois homens comuns que passam a acreditar que uma poderosa executiva de uma grande corporação não é humana, mas uma alienígena infiltrada com intenções de destruir o planeta. A partir dessa suspeita, o filme se desenvolve como um sequestro improvável, quase grotesco, que oscila entre o ridículo e o inquietante. O ponto, porém, nunca é confirmar a teoria, mas observar até onde essa lógica pode levar quando o medo e a desinformação assumem o controle.
É justamente nesse exagero que Bugonia encontra sua crítica mais contundente. A ideia de que alguém só poderia ser “de outro planeta” para agir com tamanha frieza escancara uma percepção social cada vez mais comum: a de que grandes indústrias e corporações passaram a tratar pessoas como números, recursos descartáveis ou danos colaterais aceitáveis. Em alguns momentos, o comportamento corporativo retratado no filme soa tão desumano que a hipótese extraterrestre parece, ironicamente, mais fácil de engolir.
Emma Stone, mais uma vez em sintonia com Lanthimos, sustenta essa ambiguidade com uma atuação precisa. Sua personagem representa esse poder distante, quase inatingível, que decide destinos sem contato real com quem é afetado por essas decisões. Jesse Plemons complementa o jogo ao encarnar a paranoia crescente, mostrando como narrativas simplistas encontram terreno fértil em contextos de desigualdade, medo e falta de diálogo.
A crítica social de Bugonia não é explícita nem didática. Lanthimos prefere o desconforto ao discurso direto. O filme fala de teorias conspiratórias, manipulação da informação, relações de poder e da banalização da crueldade institucional. Não para apontar vilões individuais, mas para questionar estruturas que normalizam a desumanização em nome de eficiência, lucro ou controle.
Visualmente, o diretor mantém sua estética fria e calculada, reforçando a sensação de distanciamento emocional. A trilha sonora e os enquadramentos criam um clima constante de tensão, flertando em alguns momentos com o terror psicológico — não pelo susto, mas pela percepção de que o absurdo apresentado não está tão distante da realidade.
Mais do que contar uma história, Bugonia funciona como um espelho distorcido do nosso tempo. Ao exagerar os comportamentos, o filme evidencia algo incômodo: talvez não seja preciso vir de outro planeta para agir de forma tão insensível. Basta ocupar uma posição de poder por tempo suficiente.
Lanthimos entrega mais uma obra provocadora, que incomoda, questiona e recusa respostas fáceis. Bugonia não é um filme confortável — e talvez exatamente por isso seja tão necessário.
