terça-feira, 14 de junho de 2022

Dica de Streaming - SHAZAM!

Por Rafael Morais

A DC Comics vem acertando a mão após os ventos do “sombrio e realista” soprarem sobre as suas produções. É fato que “Batman Vs Superman” dividiu as plateias, ganhando a reprovação de grande parte da imprensa, seguido por uma “Liga da Justiça” que não deu liga!

Assim, chegamos à “Mulher-Maravilha”, responsável por arejar o universo DC, trazendo otimismo ao que estava por vir. “Aquaman”, por outro lado, demonstrou como uma história de fantasia leve, colorida e bem construída pode dar certo, sopesando o humor com o drama, sem esquecer das boas cenas de ação. Tudo isto para chegar em “Shazam!”, a aposta da vez dos estúdios Warner consolida a tendência do tom ameno, da comédia despretensiosa, entre uma pancada e outra - não só física, mas emocional - trabalhando mais na dinâmica dos personagens, nas interações e no envolvimento com a plateia. Sim, não preciso dizer que os efeitos visuais estão bons e as cenas de ação empolgam - isso já é quase obrigação para os filmes deste gênero hoje em dia. O diferencial, aqui, é outro.

A trama apresenta Billy Batson (Asher Angel) como um obstinado garoto em busca de voltar ao convívio de sua mãe, a qual se perdera durante um passeio no parque, ainda menino. Para tanto, entre rebeldias, expulsões de colégios, fugas de abrigos e incompreensão, nutrindo sentimento de desprezo, conhecemos o protagonista aos 14 anos de idade já amargurado com a vida, sem esperança. Características marcantes implementadas desde o início, as quais serão exploradas no fechamento do arco, da jornada do herói. Neste contexto, as ótimas comparações com "Quero Ser Grande", com direito a uma homenagem explícita, ou qualquer obra de John Hughes, são inevitáveis.

Entretanto, a vida do adolescente começa a mudar quando o casal Victor e Rosa Vasquez (Cooper Andrews e Marta Milans) resolve o levar para um lar provisório, de crianças “abandonadas”, oferecendo alimentação, estabilidade e o mais importante: afeto. E é justamente aí, no entrosamento ao conhecer seus “irmãos”, no convívio familiar, na química entre eles, que o filme ganha o espectador. O coração do longa pulsa naquela residência. Ponto também para a excelente trilha sonora, que vai de Queen, passando por The Police a Ramones, a boa música marca o ritmo do longa.

Não menos sensacional, destaco o elenco mirim, principalmente Freddy (o excelente Jack Dylan Grazer) moleque carismático, engraçado e amigo fiel, quase um sidekick do herói; a fofa falante Darla (Faithe Herman, surpreendente) e o inteligente Ian Chen (Eugene Choi), o viciado em videogames (olha o estereótipo), rendendo ótimas piadas/referências geeks.

Mas o principal conflito ainda estava por acontecer. Após uma confusão com dois valentões na escola, Billy foge para o metrô e é “abduzido” para um universo fantástico/paralelo, onde recebe de um antigo mago o dom de se transformar num super-herói adulto chamado Shazam (Zachary Levi impecável!). Ao gritar a palavra “SHAZAM!”, a magia toma conta e o adolescente se transforma nessa sua poderosa versão adulta. Deste modo, o tom mais divertido é logo percebido, em comparação a outros longas de super-heróis, tendo em vista que a primeira coisa que o Billy faz, junto ao seu amigo Freddy, é testar as possíveis habilidades. O poder descompromissado rende ótimas sequências, ao passo que traz leveza à narrativa. “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” é uma ova!

Advindo do horror (“Annabelle 2” e “Lights Out”), o diretor David F. Sandberg (tal qual James Wan de Aquaman), não pesa a mão, sabendo balancear e segurar sua onda gore, mesmo que o vilão dê todas as ferramentas para explorar este gênero. Sim, o Dr. Thaddeus Sivana (vivido pelo sempre competente Mark Strong) é o representante do mal encarnado, pois o nefasto sujeito absorve os sete pecados capitais, todos personificados em monstros horrendos, liberando-os quando bem deseja para atacar quem estiver no seu caminho, tipo uns capangas ou cães de caça. São nessas sequências, inclusive, que Sandberg se sente mais à vontade, na tensão dos monstros contrapondo a humanidade de suas presas. E no episódio da reunião no escritório, o cineasta flerta com o terror.

A propósito, a dualidade abordada entre os conflitos de Shazam e Thaddeus é propositalmente maniqueísta, é a luta do bem contra o mal, genuinamente. Enquanto o super-herói de Zechary Levi (o ator caiu como uma luva no personagem) conquista o público com a sua ingenuidade natural, cujo sentimento de altruísmo vai aos poucos dando lugar à falta de compromisso, é algo crescente; o malvado Dr. Sivana é ruim por essência, fazendo questão de colocar o seu arquirrival em situações que levam à perda da inocência. E isso, de certa forma, faz com que Billy/Shazam amadureça e passe a controlar os seus poderes para enfrentar o vilão.

Em “Shazam!”, os arquétipos reforçam a nostalgia, em que pese o filme se situar nos dias atuais. Ao final, o gosto que fica é aquele sentimento de “sessão da tarde”. Aquela “colcha de retalhos” bordada por referências à cultura pop por todos os lados, literalmente.

Pois é, quando o “S” da esperança surgiu lá em “Man of Steel”, e na época eu detonei por achar brega, explicativo demais, aqui já faz todo sentido. O símbolo aparece na blusa e na mochila de Freddy (que sofre bullying constantemente por mancar de uma perna), e quando este se junta a Pedro (um garoto obeso, tímido e indefeso), a Darla (menina negra, abandonada e sem lar), a um menino oriental estereotipado por ser aficionado por tecnologia e, finalmente, a Billy Batson, o “rebelde” que renega a rejeição, fica claro que este "clube dos derrotados” precisava de um “sinal verde” para seguir em frente. Saquei a referência, DC... que continue inspirada assim!=

*Avaliação: 5,0 Pipocas + 4,0 Rapaduras = 9,0.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Nos Cinemas - LIGHTYEAR


Por Rafael Morais

Em 1995, Andy recebe um brinquedo de presente que ganha vida. Buzz Lightyear era um boneco baseado no filme que o garoto mais gostava, à época. E agora estamos assistindo a esse longa preferido de Andy para conhecer a origem do famoso patrulheiro espacial na sua “versão humana”, digamos assim.

A sinopse oficial diz que “Lightyear” é uma aventura de ficção científica cheia de ação e que nela acompanharemos a jornada definitiva de Buzz (voz de Chris Evans em inglês e Marcos Mion em português brasileiro). O herói que inspirou o brinquedo agora terá sua história contada numa metalinguagem bem bolada pelos criadores de Toy Story.

A nova narrativa segue o lendário Space Ranger em uma experiência intergalática ao lado de um grupo de recrutas renegados e desajeitados, mas não menos ambiciosos (vozes de Keke Palmer, Dale Soules e Taika Waititi), e seu companheiro robô Sox (voz de Peter Sohn/César Marchetti). A animação é dirigida por Angus MacLane (co-diretor de “Procurando Dory”), parceiro habitual da Pixar em curtas-metragens.

Mas o que esse resumo acima não antecipou foi a carga dramática e os conflitos que todos os personagens, seja o protagonista ou os coadjuvantes, passam durante a trama. O arco de redenção e progresso de cada um é notório.

O inteligente roteiro foca no errático e na imperfeição para trazer humanidade ao triunfo. Todos têm a sua importância aqui. A equipe do herói, escolhida por acidente e por ausência de opção, é marcada pela falta de talento aliada à vontade de sempre melhorar e de acertar. E isso aproxima o público, há identificação. Observe que a Pixar vem explorando cada vez mais essa temática: vide o sucesso recente da canção "Não falamos do Bruno" da animação "Encanto".

A computação gráfica, por sua vez, é deslumbrante. Há um inegável avanço nos efeitos visuais. Perceba o movimento dos cabelos dos personagens, o balançar dos fios que ganham vida num vaivém hipnotizante. As boas sequências de ação também são auxiliadas pelo CGI de alta qualidade.

Já a trilha sonora de Michael Giachinno é só operante, passando longe de ser tão inspiradora quanto o seu último trabalho em “Homem-Aranha: Sem Volta Pra Casa”.

E para quem, assim como eu, estava criticando a escolha de Marcos Mion para dublar o protagonista, uma vez que Guilherme Brigs dava voz ao Buzz desde sempre, tem que reconhecer o excelente trabalho do cara. Mion desaparece na persona do herói e por várias vezes esqueci que era ele quem estava dublando. O que é um bom sinal.

Essa mudança da Disney foi global e justificou a substituição de todos os dubladores. Há uma enorme diferença na personalidade: se por um lado tínhamos um boneco nascido num passe de mágica e totalmente perdido num quarto, ainda se conhecendo e lidando com outros toys ao seu redor; por outro, agora vemos um humano autoconfiante e totalmente ciente de sua missão. Esse é o ponto. A autoconfiança de Buzz e o domínio do ambiente onde está inserido é sentido na voz. E como foi esse longa que inspirou a criação do brinquedo, de acordo com a história apresentada, nada mais justo que encarar a versão clássica como uma paródia, uma reinvenção.

Portanto, esqueça o fiasco de Luciano Huck em "Enrolados". Aprenderam com o próprio erro, felizmente.

E a inventividade não poderia faltar por ser marca registrada do renomado estúdio. Assim, o gato robô Sox é um exemplo disso. Carismático, engraçado e com o timing perfeito para o alívio cômico, o bichano autômato rouba a cena.

Ao infinito e além do Toy Story...Lightyear é Pixar na essência!

*Avaliação: 4,5 Pipocas + 4,0 Rapaduras = 8,5.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Dica de Streaming - CINE HOLLIÚDY


Por Rafael Morais

Halder Gomes homenageia o Cinema, ao tempo em que propõe a interiorização deste.

* ATENÇÃO: Alguns termos serão digitados em cearensês. Abaixo da avaliação da resenha você poderá ler os significados de cada um. 

Baseado no premiado curta: "O Astista Contra o Caba do Mal" (também dirigido por Halder Gomes em 2006), Cine Holliúdy ganhou um longa-metragem com o objetivo de introduzir e desenvolver melhor aquele universo e personagens já apresentados. Contudo, apesar de utilizar uma linguagem extremamente regionalista - "cearensês" - a temática central proposta é universal, pois o cineasta faz um bom uso da metalinguagem para narrar a saga de um homem que leva sua esposa e seu filho pelo interior do Ceará em busca de manter vivo o sonho de projetar filmes para os menos privilegiados.

E neste sentido, a fala de Francisgleydisson (Edmilson Filho), este pai de família "abirobado" por cinema, em uma das surpreendentes cenas emocionantes reservadas, diz muito sobre o espírito do filme: "Enquanto houver vida, haverá Cinema". Na filosófica frase do personagem, a troca da palavra esperança por cinema tem tudo a ver e reflete bem toda a dedicação e amor daquele "caba" pela sétima arte, justificando a sua "peleja" e teimosia nesta intrépida e árdua missão.

A direção de arte, por sua vez, é "arretada" ao ambientar o filme de forma detalhista na década de 70. Fitas de Kung Fu, com títulos pra lá de toscos, divulgados em placas no chão; carrinho de pipoca estacionado na frente do cinema; palhaço com pernas de pau (que ajudam a assistir ao filme pelas brechas sem pagar o ingresso); veículos típicos da época; e, principalmente, figurinos e cenários que valem para reproduzir a atmosfera nostálgica sugerida pela produção. Assim, a sequência que mostra a reforma do cineminha, por exemplo, denota todo este esmero artístico.  

Alguns tipos apresentados são outro show à parte. Falcão como um cego "ingnorante, mah" e Bolachinha como a oposição política, entre outras figuras que aparecem naquela sessão de cinema, conferem verossimilhança às cenas, uma vez que faz o espectador pensar: " já vi um desses no meu interior." Porém, a escolha de Karla Karenina como torcedora do time do Fortaleza, com poucas falas e importância, não traz uma personagem à altura da atriz, ainda que seja para mostrar a rivalidade regional entre os times de Futebol local (convenhamos que o Fortaleza não dá pra disputar com o glorioso Ceará, rsrsrsrs).

Do mesmo modo, a esposa de Francisgleydisson, vivida pela atriz Miriam Freeland, não convence como uma mulher tipicamente cearense. Mesmo dotada de um forte carisma, o seu estereótipo não ajuda na composição da persona, sobretudo pelo sotaque nordestino forçado.

E por falar no elenco local, por mais inexperiente que sejam como atores, há uma tridimensionalidade nos personagens. É verossimilhante. Halder Gomes tinha o elenco na mão e, como um bom cineasta, soube extrair o máximo de cada um sentindo a química entre eles. Entretanto, ainda neste tocante, confesso que senti falta das molecagens do ator, diretor de peças teatrais, comediante e "marmotoso" Carri Costa. O filme tem a sua cara e é revestido pela matéria-prima de seu trabalho artístico: o humor cearense de molecagem. Derrapada corrigida em 2019 no lançamento da série homônima produzida pela Globo, onde o Carri Costa é adicionado ao casting.

Elenco à parte, em se tratando de comédia, Halder consegue o essencial e mais difícil: mostra domínio do tempo cômico e faz o humor funcionar a contento, mesmo que a montagem não ajude em certos momentos. Algumas cenas, mesmo funcionando bem e arrancando risos "discatitados" da plateia, parecem descoladas da trama principal. Repare, por exemplo, nas críticas feitas às religiões católica e protestante. Deslocadas dentro do contexto do filme, parecem mais curtas-metragens dentro de um longa, do que propriamente uma sequência narrativa. O desfecho da trama, não obstante ser bem realizado, é prejudicado por uma elipse temporal que salta para o futuro dos personagens, "rebolando" o espectador lá na frente sem se dar ao trabalho de dizer, ou fornecer pistas, de como eles chegaram até ali. 

Mas esses pequenos entraves técnicos, no entanto, não conseguem abalar a experiência de assistir a um filme autêntico, funcionando como uma reflexão sobre o próprio Cinema brasileiro, de grandes aspirações, dificuldades "medonhas", principalmente, para aqueles que não têm acesso à cultura e ao lazer.

Interiorizar o Cinema auxilia a acessibilidade destes direitos fundamentais de todo cidadão. Se tivéssemos mais Francisgleydisson's e Halder's em prol do Cinema, a cena local - em termos de produção e exibição de filmes - seria outra: mais "joiada", mais "gaiata" e com a rubrica do povão assinando embaixo. 

*Avaliação: 5,0 Pipocas + 3,0 Rapaduras = 8,0.

Tradução de alguns termos cearensês usados na resenha:

- Cearensês = linguajar próprio do povo cearense;

- Mermo = mesmo;

- Gaiatice = brincadeira; querer ser engraçado;

- Abirobado = alucinado; fanático;

- Caba = cara no sentido de rapaz; homem;

- Peleja = insistência; persistência;

- Arretada = excelente; massa;

- Ingnorante = ignorante;

- Man ou Mah = homem; cara;

- Marmotoso = pessoa que faz palhaçada; faz graça; 

- Discatitados = histriônicos; exagerados;

- Rebolando = Arremessando; jogando;

- Medonhas = grandes; imensas;

- Joiada = legal. 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Dica de Streaming – CORINGA


Por Rafael Morais

“O homem é produto do meio”

Coringa foi um dos filmes mais politizados do ano de 2019! E isso não é necessariamente um mérito, neste caso. Quão grande foi a minha surpresa, negativa, ao perceber que o longa de Todd Phillips apenas flertava com o terror psicológico para abraçar os entraves políticos, e seus desdobramentos, mesmo que superficialmente, de uma maneira inesperada. A questão é que o roteiro do próprio Phillips, em parceria com Scott Silver, não tem estofo suficiente para abordar estas problemáticas com a complexidade que merece, tornando o discurso muito maniqueísta e até relativamente perigoso.

Mimetizar “Taxi Driver” e “O Rei da Comédia” é fácil, difícil é ser Martin Scorsese. E com Robert De Niro no elenco, aliás, temos uma referência direta a estas obras, sem contar os signos claros percebidos durante a projeção.

Assim, é lamentável observar a abordagem “preto no branco”, as diversas frases de efeito, os estereótipos criados e repisados durante a criação de um “símbolo”. Uma verdadeira ode ao vilão.

Para se ter uma ideia, por diversas vezes, me peguei pensando: quem foi o adolescente raivoso que escreveu este script?! Inacreditável o mau gosto dos roteiristas para desenvolver o gatilho da revolução dos “clowns”. Sério mesmo que “os ricos têm que morrer”, simplesmente por serem abastados; e “aquele que não for bem sucedido na vida é um palhaço”, no sentido mais pejorativo que você possa imaginar?! Sério isso?! Essas situações não me permitiram criar envolvimento com a obra, confesso.

Esperava algo mais delineado, cuidadoso, sagaz e menos direto. O anarquismo visto pelo Joker de Heath Ledger, por exemplo, em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (Christopher Nolan, 2008) caiu como uma luva na época, diferente do que acontece nesta reencarnação do Palhaço. Por mais que o protagonista não tenha a menor noção dos seus atos, isso despertou uma dualidade “adormecida” entre o povo massacrado pela ausência de política pública x os seus algozes (aqui leia-se: políticos, autoridades e a elite), tornando uma narrativa extremamente maniqueísta (repito) e forçada!

A impressão que se dá é de uma sociedade esquizofrênica que necessitava de um representante, a qualquer custo, e escolheu o primeiro que apareceu. E como estamos falando de Gotham City, isso não seria inviável. O Coringa, vítima desta mesma sociedade, um líder por acidente capaz de criar um estopim social de uma hora pra outra, por acaso, realmente não me desceu. Gostava mais do mistério por trás do vilão de outrora, e não a romantização autoindulgente do anti-herói presenciada aqui.

Mas nem tudo é desgraça. Joaquin Phoenix entrega uma atuação forte, desaparecendo dentro do personagem, se contorcendo, literal e gradativamente, num sujeito retraído, triste e solitário prestes a explodir. O bizarro “distúrbio do riso”, por sinal, é algo constrangedor e assustador, ao mesmo tempo, algo que o excelente ator trabalha com genialidade por meio de uma incrível linguagem corporal, encontrando uma saída inteligente para a icônica risada do vilão.

Tudo isso auxiliado pela ótima composição sonora de Hildur Guðnadóttir ao estabelecer tensão na utilização de violoncelos distorcidos, arranhando o juízo do público, bem como ao inserir batidas enervantes de “tic-tac” ao fundo, numa clara alusão a uma “bomba-relógio”.

Nesta pegada, o suspense toma uma crescente angustiante e a plateia sente o peso das ações e suas consequências. Tecnicamente, a direção de Phillips não deixa a desejar, sendo precisa ao captar os movimentos corporais, as expressões faciais e a aflição do anti-herói. Como Arthur está em mutação constante, parecendo não caber mais dentro de si, a fotografia reserva espaço para um frame excepcional: repare que durante um diálogo formal, sentado e segurando um cigarro em uma das mãos, entre as duas pernas inquietantes, temos um truque de câmera simples, mas capaz de metaforizar a situação daquele sujeito que está fumaçando, literalmente, de dentro pra fora, emanando a efervescência de uma mente doentia através de seu corpo cadavérico e cansado de apanhar da vida.

Tão excepcional quanto a performance de Phoenix em seu estudo de personagem, a direção de arte é extremamente cuidadosa nas minúcias, que vão desde a composição dos objetos de cena (os detalhes da modesta casa dos Fleck é uma delas) passando pela ambientação da cidade imersa no lixo; sem esquecer o acertado figurino colorido, envolto numa atmosfera de uma Gotham dessaturada que, aos poucos, o anti-herói vai introduzindo os seus próprios adereços no dia a dia, quase por osmose.

Observe que todos esses adornos, típicos do mundo circense, vão se incorporando a Arthur, naturalmente, durante a sua transformação. A maquiagem exagerada, a cor esverdeada do cabelo, o nariz vermelho, os sapatos enormes. Uma nova identidade surge cada vez mais solta, autoconfiante, dançante, segura e livre das amarras da sanidade.

Em que pese um roteiro superficial, quando deveria ser complexo o bastante para acreditarmos nessa revolução proposta, “Joker” é um filme violento, inquietante e perturbador, igual o protagonista-título.

 *Avaliação: 3,5 Pipocas + 4,0 Rapaduras = 7,5.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Aniversariantes Memoráveis - 45 anos de SORCERER: O COMBOIO DO MEDO


Por Rafael Morais

Refilmagem do clássico francês "O Salário do Medo", de Henri-Georges Clouzot, traz William Friedkin (de "O Exorcista") na direção. A história narra a sina de quatro homens impedidos de voltar aos seus próprios países, por diferentes motivos e que acabam se encontrando em um país pobre da América do Sul, onde são contratados por uma companhia de petróleo para uma missão quase suicida: transportar uma perigosa carga de explosivos por um terreno acidentado.

Película dona de uma atmosfera claustrofóbica e carregada de tensão, guarda no desenvolvimento de seus personagens e na irretocável construção do clímax o seu ponto alto. Interessante notar como o cineasta sabe a importância da criação de uma persona não só para os atores, mas também para os objetos/elementos de cena. Não à toa que o caminhão, onde se passa grande parte da ação do longa, é brilhantemente arquitetado através de uma linguagem narrativa inteligente ao empregar características marcantes ao veículo durante a sua montagem. Dar personalidade a um ser inanimado não é para qualquer um.

E como estamos falando de um diretor ímpar, Friedkin filma o comboio contra a luz, ao final de sua concepção, em uma fotografia impecável, gerando uma persona corajosa e hostil no meio daqueles homens desesperados. Destaque para a famosa sequência da ponte que demorou três meses para ser rodada, graças ao perfeccionismo de seu idealizador, esticando o orçamento e enfrentando problemas na pós-produção.

Recomendação máxima para aqueles que curtem um bom suspense com uma pegada aventuresca.

*Avaliação: 4,0 Pipocas + 5,0 Rapaduras = 9,0.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Dica Disney Plus - TOY STORY 4

Por Rafael Morais

O ano era 1995. Brinquedos ganham vida nos cinemas revolucionando a era digital das animações. Sucesso de crítica e público, "Toy Story" narrava as aventuras de um carismático cowboy, um destemido patrulheiro espacial e uma turminha do barulho (sim, isso pareceu uma chamada de "sessão da tarde"), arrebatando fãs ao redor do mundo; e eu não fiquei incólume.

Passados 24 anos até o novo capítulo, é impressionante como a Pixar evoluiu tecnicamente sem esquecer a emoção como "carro-chefe" de suas obras. Se no capítulo anterior, o nível de emotividade chegou ao limite, nesta sequência temos as consequências do que aconteceu com Woody, Buzz e cia. depois que o seu dono Andy cresceu e foi para faculdade, doando seus brinquedos à doce Bonnie.

Desta vez, a garotinha concebe o seu próprio brinquedo durante o primeiro dia de aula no jardim de infância. O "Garfinho" vem ao mundo através de uma iniciativa de reaproveitamento de materiais descartáveis que, por sua natureza, não seriam mais úteis. Assim, ao se sentir sozinha e amedrontada no inédito ambiente escolar (lembre-se que ela ainda estava na creche no filme passado) Bonnie cria e customiza um amigo ao seu modo: o Garfinho é desajeitado, inseguro e simpático.

Deste modo, é interessante perceber o relevante subtexto ambientalista quando trata a reciclagem pelo aspecto anticonsumista, bem como pelo viés do estímulo à criatividade da criançada. Não à toa, o talherzinho recém-criado tem uma obsessão autodepreciativa combatida por Woody com resiliência. Portanto, é genial a ideia de se reinventar durante a "crise de identidade" de um objeto que nasceu para ser utilizado apenas durante uma refeição e ser descartado logo em seguida. O enredo brinca com o lúdico explorando os conceitos de amizade, família e lealdade no melhor estilo da franquia.

A nova trama coloca toda a trupe reunida numa viagem em família que vai revelar surpresas e confirmar a personalidade de alguns toys. Se Woody está cada vez mais altruísta tornando-se o coração do filme, Buzz Lightyear não demonstra autoconfiança à altura do companheiro, uma vez que busca a "voz interior" para ditar os seus passos, literalmente. Neste contexto, me incomodou também o fato de o script diminuir a participação de personagens clássicos como o Sr. e Sra. Batata, Rex, a cowgirl Jessie e até o próprio Buzz. Eles quase não auxiliam no desenvolvimento da história, sendo meros coadjuvantes de luxo, bem diferente dos outros títulos.

Entretanto, sem querer entrar no terreno dos spoilers, não é novidade pra ninguém que Betty reaparece no longa, isso está nos trailers e no vasto material de divulgação. Feita de porcelana, genuinamente um bibelô, a camponesa teve o seu fechamento de arco digno que aborda também a questão do se reinventar. Aproveitando a onda do "girl power", Betty se transforma desde o figurino mais despojado, passando pelos adornos capazes de identificar a marca do tempo: tudo isso reflete sua nova personalidade. Se antes o seu cajado era imóvel, colado ao seu corpo, servindo apenas como enfeite, agora o bastão é uma poderosa arma nas suas mãos. A expertise que ela ganha no habitat livre justifica toda a mudança de atitude firme e até uma certa marra que adquiriu com o tempo.

Já a direção ficou por conta de Josh Cooley que, apesar de ser o seu primeiro longa no currículo, já era um antigo conhecido e colaborador da Pixar. O cara participou do roteiro de “Divertidamente” (2015, Pete Docter), além de ter desenhado storyboards para “Up - Altas Aventuras” (2009, Pete Docter) e “Ratatouille” (2007, Brad Bird). O estúdio não deu um “tiro no escuro” e acabou acertando na escolha. Cooley enquadra os brinquedos como verdadeiros heróis, contempla a história de amizade dos mesmos através de lindos raccord temporais, demonstrando conhecer a essência de Toy Story imaginada por John Lasseter.

Mas a beleza da animação também perpassa tanto pela talentosa direção artística quanto pela nítida evolução dos efeitos digitais. A película é irretocável no quesito técnico! Tudo é muito lindo, vistoso, colorido nos momentos certos e cinza nos instantes necessários. O antimaniqueísmo reflete na paleta de cores.

Aqui, a perfeição da Pixar em animar seres inanimados chegou ao auge quando um simples garfo conquista o espectador com tamanha empatia. O universo de Toy Story está cada vez mais fotorrealista e não esconde mais os adultos, limitando a câmera à altura do joelho ou da cintura destes, tal qual o primeiro capítulo quando nos remetia à Muppet Babies. Agora, até close-ups são utilizados nos rostos de vários personagens humanos mais velhos, dando a impressão da inevitável integração entre mundos tão diferentes.

Quanto às canções, destaco que “Amigo, Estou Aqui” ainda emociona, sobretudo quando entoa uma sequência que, certamente, mexerá mais com os adultos que cresceram com a obra do que propriamente com a meninada. Por sua vez, a nova música do desconsertado Forky (o Garfinho como foi traduzido por aqui) também tem seu charme, visto que a letra desafia o destino natural das coisas. Para o padrão Disney, no entanto, confesso que senti falta de mais números musicais.

Já o antagonismo ficou por conta de “Gabby Gabby”, uma boneca mandona, centralizadora e sinistra que mora num antiquário. Junto com os seus assombrosos capangas, a anti-heroína (não dá pra chamá-la de vilã clássica) remete aos filmes de horror com bonecos amaldiçoados. Há todo um clima de suspense no ar, nunca antes explorado na jornada da franquia. Prepare-se para jump scares (pulos de sustos) quando os Benson’s aparecem. Outras ótimas adições ao elenco são os ursinhos “Patinho” e “Coelhinho”. Os caras surtam nos mais mirabolantes planos arquitetados pelas suas mentes maquiavélicas. Sem contar o dublê “Duke Caboom” (voz de Keanu Reeves), um sujeito cheio de conflitos e traumas os quais são postos à prova durante uma cena que arrancou aplausos da galera na minha sessão.

Enfim, “Toy Story 4” é engraçado, dramático, nostálgico e emocionante! O filme chancela a qualidade da Pixar na questão técnica, bem como traz uma resolução corajosa para o nosso amigo Woody, muito embora não se importe tanto com os coadjuvantes. Assim, por mais que o filme faça um estrondoso sucesso nas bilheterias, infelizmente, sinto que o estúdio irá colocá-lo na geladeira por um bom tempo. Em recente entrevista, produtores falaram que as continuações tendem a não ter mais prioridades, pois o futuro reside nas novas marcas, novas histórias. Além do mais, com o esmero que a Pixar tem com os seus produtos, não é todo dia que um novo enredo vai convencê-los a mexer com as suas principais pérolas. Mas independente do que vier por aí, só digo e repito uma coisa:

♫ ♫ ♫

“O tempo vai passar

Os anos vão confirmar

As três palavras que proferi

Amigo, estou aqui!"

*Avaliação: 5,0 Pipocas + 4,0 Rapaduras = 9,0.

sábado, 4 de junho de 2022

Nos Cinemas: JURASSIC WORLD - DOMÍNIO

Por Rafael Morais

Sequência direta de "Jurassic World: Reino Ameaçado" (de 2018), a história da vez acompanha quatro anos após a destruição da Ilha Nublar. Agora, os dinossauros vivem, caçam, são caçados e sobrevivem ao lado de humanos em todo o mundo. Consequência disso é o iminente desastre biológico e ambiental dessa convivência forçada, uma vez que nem todos os répteis conseguem coexistir em harmonia com a espécie humana, e vice-versa. Esse desequilíbrio poderá colocar o futuro em cheque. Com esta cadeia alimentar em desordem, os maiores predadores do planeta estão destronando outros num ciclo caótico.

Lendo assim parece o enredo perfeito. Só aparenta.

As ideias e o potencial do argumento são totalmente descartados durante o desenrolar dos atos. É um típico blockbuster enlatado daqueles sem alma, sem identidade, que o melhor dele já está no trailer. A propósito, a prévia separa as melhores cenas. É aquele famoso caso do trailer ser infinitamente melhor que o filme. Sabe aquela redação que começa bem, mas que não se desenvolve e chega até a fugir de tema?! Pois é, aqui em "Jurassic World Domínio" é mais ou menos isso que acontece: uma produção realizada de qualquer jeito que arremessa ideias, planta conceitos, mas que acaba colhendo piadas mal construídas, falta de timming cômico e de desenvolvimento de diálogos minimamente críveis, já que pedir capricho seria demais.

Nem as famosas cenas de ação escapam, marca registrada da recente franquia. Tudo é muito confuso: a geografia da misancene simplesmente não existe; é uma edição mal renderizada, uma película pessimamente finalizada e coreografada de forma desleixada. Sem contar que o desenho de som é estrondoso ao ponto de distorcer ao invés de equalizar. Zuadento é diferente de impactante.

Apelar para o trio original formado pelos ótimos Laura Dern (Dra. Ellie Satler), Sam Neil (Dr. Alan Grant) e Jeff Goldblum (Dr. Ian Malcom) não foi suficiente. Pelo contrário. Mal aproveitados, os personagens apenas desbloqueiam a nostalgia barata no espectador. E nada mais. Dar vergonha alheia as linhas de diálogos entre eles, por sinal. Por vezes, são mais rasos que uma poça d'água causada por uma neblina. É preguiçoso! Não deu química, não deu match!

A franquia anunciou o seu fim, felizmente, e ficou fácil perceber a saturação da saga. Nem sombra do que foi o clássico de 1998. Spielberg assistiu isso, será?! O diretor Colin Trevorrow demonstra ser fã do original, mas isso não é suficiente.

O que escapa, então, para não dizer que esse novo episódio foi um completo desastre? Alguns enquadramentos são bem captados e retratam essa tentativa de convívio dos dinossauros com os homens aqui na Terra. Cavalos correndo contra o sol sempre é bonito de se ver. Outro ponto positivo fica pra única cena de suspense do filme, onde Claire (Bryce Dallas Howard) se arrasta na mata para não ser trucidada por um dino esquisitíssimo, visual ameaçador de um novo tipo de predador. Inventividade não falta no quesito visual, temos que concordar com isso.

Ao final, o que mais assusta não são os maiores predadores do universo, que precisam se reinventar a cada episódio, mas sim as facilitações de um roteiro pobre de conteúdo e de espírito que nem sequer consegue harmonizar a introdução com o desfecho. Lamentável a série "O Parque dos Dinossauros" terminar de forma tão genérica, totalmente no piloto automático.

* Avaliação: 1,5 Pipocas + 1,5 Rapaduras = 3,0.