domingo, 26 de novembro de 2017

NOS CINEMAS - Liga da Justiça



Por Rafael Morais
26 de novembro de 2017

Depois dos eventos de "BvS - Batman Vs Superman", Bruce Wayne (Ben Affleck) decide reunir um grupo de meta-humanos capaz de conter uma ameaça intergalática que pretende aniquilar a vida na Terra e se apoderar do planeta. Baseado nesta premissa, o roteiro, transbordado de clichês, de Chris Terrio e Zack Snyder é tão óbvio e infantil ao ponto de nos depararmos com aquelas famosas frases de efeito: "vamos salvar o mundo" ou "o mundo precisa de nós"! Mas os problemas do filme não ficam somente aí. A pressa com que a DC/Warner tem em apresentar seu universo estendido e cinematográfico de seu vasto plantel de heróis é visível no desespero em introduzí-los nas telonas. Tudo é arremessado por meio de explicações didáticas (faltou só um datashow) embutidas em pen drives (BvS), tolhendo todo o charme mítico daquelas figuras. 

Acompanhar o mercado aquecido de heróis que invadem as salas de cinema é fácil, o difícil é fazer isso com qualidade. Perceba que até o tom mitigado entre o divertido e sombrio conquistado na trilogia Dark Knight, de Christopher Nolan, foi totalmente descartado aqui. Na verdade, devido a pressão advinda do público e da crítica, o filme não tem um tom definido, seja no humor ou na paleta de cores. Não há uma identidade visual própria, tornando a produção genérica. Aliás, percebemos facilmente o desleixo através de tomadas pouco inspiradoras (para não dizer horríveis) como aquela em que os heróis saltam de um trem, um de cada vez, em meio a um túnel escuro. É perceptível o cenário montado, sem vida, bem como a luz artificial, indireta, projetada na misancene. Muito tosco! Nesta mesma sequência, ainda notamos que o uniforme do Batman (cada vez mais parrudo) não passa de um amontoado de plásticos emborrachados, dando a impressão que a sua movimentação é anatomicamente impossível. Seria moleza derrotar um cara todo emplastificado, até nas juntas, porém, graças ao CGI, o milagre acontece e o morcegão consegue se mexer fluidamente para derrotar seus inimigos. 

Esteticamente feio e dono de uma montagem nada inspiradora, "Liga da Justiça" tinha todo potencial para ser espetacular. Talvez a troca de diretor no apagar das luzes (pós-produção), sai Snyder entra Joss Whedon, tenha auxiliado na formação do Frankenstein que é esse longa. Os remendos na película são notórios. Piadas de humor sem o mínimo timing cômico são arremessadas no público na tentativa de segurá-los. Mas como se prender a um filme que volta a lidar com a temática já experimentada no terrível ''Lanterna Verde'', onde o vilão fareja o medo. Sério isso? O medo, de novo?! Como se não bastasse errar uma vez, a DC permanece no erro ao não manter sua identidade dos quadrinhos (dizem os especialistas que a pegada é mais densa por lá) e regressa com falhas já catalogadas na sua oscilante cinematografia, se entregando ao fan service fake quando tenta mimetizar a concorrente Marvel até mesmo incluindo duas cenas pós-créditos. 

O elenco, por sua vez, se esforça para agradar, mas acaba se resumindo a isto: o Flash de Ezra Miller é aborrecedor e aparece sempre com a mesma expressão de assustado. Não convenceu. O Ciborgue de Ray Fisher lembra os dilemas do Robocop, mas não é bem explorado. Já o Aquaman de Jason Momoa pode render um filme solo legal, tendo em vista o carisma do ator. O vilão, Lobo da Estepe, é um desastre completo, uma vez que  é todo trabalhado no digital, sem expressão alguma, sendo mais um boneco metido a assustador com um baita vozeirão grave modificado na mesa de som. Enquanto isso, a chamada Trindade, formada por Mulher-Maravilha (Gal Gadot MARAVILHOSA como sempre, com o perdão do trocadilho), Batman e Superman (Henry Cavill e sua barbearia digital) tenta segurar todo o filme nas costas, e que embora sejam largas, não aguentam. 

Outro desacerto fica por conta da quase trilha sonora. A obra em si é um quase. Poderia se chamar "Quase Liga da Justiça", inclusive. Por que raios não inseriram completamente as icônicas trilhas originais/tema do Batman e do Superman, mas apenas o comecinho, uma palhinha?! MEDO de não ser original? Cuidado com o medo porque se não bicho papão vem e pega. Foi isso que vocês nos ensinaram. A propósito, nem a canção "Come Together" (dos Beattles), que teve uma regravação sensacional por Gary Clark Jr., exclusiva para o filme, foi utilizada durante, mas, apenas depois, nos créditos finais. Anticlímax total! Diferente de Thor Ragnarok, por exemplo, que injetou duas vezes o ''Immigrant Song'' de Led Zeppelin e foi de arrepiar.

Entretanto, depois de tantas mordidas, vale assoprar um pouquinho. Aqui e acolá, algumas cenas podem empolgar os mais suscetíveis, como quando o Detetive de Gotham caça um monstrengo, durante a noite escura de Snyder - e bota escura nisso - nos altos dos prédios de Gotham (ou seria Metropolis ?); num certo diálogo entre Clark e Bruce que referencia o pré-embate entre eles ocorrido em BvS; no instante em que o batmóvel atira projéteis contra bestas, e a famosa câmera lenta do diretor entra em ação para mostrar as cápsulas caindo em primeiríssimo plano; ou até mesmo quando toda a Liga está reunida e vislumbra o horizonte (enquadramento clássico). Mas não foi suficiente, não deu liga DC/Warner...não foi dessa vez.

*Avaliação: 2,5 pipocas + 2,5 rapaduras = nota 5,0. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

NOS CINEMAS - Thor: Ragnarok

Por Rafael Morais
31 de outubro de 2017

Um filme de comédia, que respeita todas as convenções do gênero, pontuado pelo som pauleira de Led Zeppelin (“Immigrant Song” cai como uma luva) nas principais cenas de ação, tudo isso contando com a presença da estonteante Cate Blanchet. Sem querer minimizar a nova produção do Marvel Studios, este resumo retrata bem a película, mas isso não quer dizer que foi uma experiência ruim. Longe disso.

A aventura da vez foca no iminente Ragnarok (apocalipse) de Asgard, enquanto Thor (Chris Hemsworth, cada vez mais à vontade no personagem) está preso do outro lado do universo, no distante planeta Sakar. Assim, o herói precisa correr contra o tempo para voltar à sua terra natal e tentar impedir o pior. Contudo, a tarefa não vai ser fácil, tendo em vista que a incumbência de destruir aquele mundo repousa nas mãos da poderosa e implacável vilã Hela (a linda e talentosa Cate Blanchett).

Baseado nesta premissa simples, o roteiro deita e rola nas piadas, sem se preocupar em aprofundar as relações, muito menos dramatizá-las. Tudo funciona a favor da diversão, embora esteja tratando, simultaneamente, da extinção de um planeta. Mas isso não incomoda, já que o tom da filmografia da Marvel nunca foi sério ou sombrio, com a exceção da trama de espionagem imprimida em “Capitão América 2: O Soldado Invernal”. Desta vez, o público não pode alegar que foi enganado pela campanha de divulgação. Cartazes extremamente coloridos, trailers bem humorados e contratação de Taika Waititi para direção: o resultado não poderia ser outro, foi entregue justamente o que se esperava.

Tecnicamente regular, o CGI (computação gráfica), em alguns momentos, não traz verossimilhança aos cenários, sendo quase palpável o chroma key (tela verde para projeção de efeitos) por detrás dos personagens. O capricho visual ficou mesmo por conta do esperado embate entre Thor e Hulk (Mark Ruffalo) na arena de gladiadores. Impecável! Os monstros gigantes também tiveram atenção especial dos efeitos digitais. A fotografia, por sua vez, parece pouco inspiradora, em que pese o 3D entender bem a profundidade de campo e oferecer perspectivas interessantes, seja na ação ou na própria ambientação, afinal de contas estamos conhecendo o novel universo de Sakar. Destaque para a vasta e saturada paleta de cores explorada, transformando a película em um arco-íris, inspirada nos traços marcantes das HQ’s do aclamado Jack Kirby, segundo especialistas na matéria.

Se “Thor: Ragnarok” acerta na apresentação de novos personagens, como o divertido Korg (expressão corporal captada pelo próprio Waititi); a jornada de redenção da Valquíria interpretada pela ótima Tessa Thompson; o Skurge/Executor de Karl Urban acaba mais interessante do que começou; sem esquecer o divertido Grão-Mestre na pele do experiente Jeff Goldblum. O mesmo não podemos dizer sobre o desenvolvimento daqueles que já conhecemos: o Loki, que já foi vilão dos Vingadores, não oferece mais ameaça alguma; o Thor parece um humorista, sugerindo que talvez possa vir a ser o alívio cômico do supergrupo; Heimdall, como sempre, desperdiça o talento de seu intérprete, Idris Elba. Já o Hulk “chutou o balde” para o seu dilema existencial, restando apenas um gigante bobo dentro do excêntrico cientista Banner. Mas há uma química entre todos eles, isso não se pode negar.

Ao final, Waititi entrega uma típica obra da Disney/Marvel, dentro da zona de conforto, sem jamais se arriscar, mas que promete agradar a todos os níveis de público. E que venha a saga “Guerra Infinita”...

 *Avaliação: 4,5 pipocas + 3,0 rapaduras = nota 7,5.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

NOS CINEMAS - Kingsman: O Círculo Dourado

Por Rafael Morais
16 de outubro de 2017

Se toda continuação, de qualquer blockbuster que se preze, segue a regra da grandiloquência, em que tudo deve ser maior e mais exagerado, então este “Kingsman: O Círculo Dourado” seguiu direitinho a cartilha.

A trama da vez gira em torno do surgimento de uma nova ameaça capaz de eliminar o Kingsman, sobrando “apenas” Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) como remanescentes. Em busca de ajuda, eles partem para os Estados Unidos à procura da Statesman, uma organização secreta de espionagem onde trabalham os agentes Tequila (Channing Tatum), Whiskey (Pedro Pascal), Champagne (Jeff Bridges) e Ginger (Halle Berry). Unidos, eles precisam enfrentar a responsável pelo ataque: Poppy (Julianne Moore), a maior traficante de drogas da atualidade, que elabora um plano mirabolante para sair do anonimato.

A boa notícia é que Matthew Vaughn voltou à direção – após o excelente capítulo antecessor – conseguindo imprimir o seu ritmo alucinante de ação em sequências de tirar o fôlego, ao ponto de a polêmica cena da igreja do primeiro ser apenas um aperitivo para o que estava por vir. Pautado na falta das leis da física, e isso não é nunca foi um problema em si, a ação prende a atenção do público, ao passo que o carisma de seus personagens também nos faz importar com o desfecho de cada um. O agende Galahad de Colin Firth volta, para o bem da franquia, demonstrando toda a força de um ator veterano e talentoso, contracenando ótimos diálogos e situações com o jovem Egerton.

A química experimentada em “Serviço Secreto” está lá, mas isso é o suficiente? Em que pese os efeitos especiais espetaculares, bem como as alucinantes perseguições de carro, o tom de autoparódia, e do uso abusivo de clichês do gênero (filmes de espionagem) podem incomodar. Carros submarinos, mulheres descartáveis que servem somente para o espião descobrir algo, elegância e glamour são apenas algumas das convenções exploradas aqui até não poder mais. Oscilando entre a comédia e a ação, não sabendo se decidir em qual lado ficar, “O Círculo Dourado” peca mesmo é na escala de sua urgência, sempre relegada ao famoso “vou ali salvar o mundo e volto já”. Sem falar no erro de casting ao escalar a doce Juliane Moore como uma vilã maquiavelicamente caricata, não nos convencendo jamais aquela maldade fabricada.

Não, o filme anda longe de ser todo ruim. A trilha sonora é bem escolhida, os enquadramentos de Vaughn são bem realizados e o resultado é uma obra divertidíssima que quase não percebemos passar suas duas horas e pouco de duração. Mas é Pedro Pascal, como o agente Whisky, que salva o longa. O novel personagem da saga confere uma rasteira complexidade à sua persona, acrescentando camadas, embora finas, a um tipo que também estava fadado ao trivial.
Ao final, resta mesmo é aquele cheirinho de produção “caça-níquel” no ar, tanto que um próximo episódio já está vindo por aí. Veremos até quando a criatividade de Hollywood consegue expandir este universo.

*Avaliação: 4,5 pipocas + 2,5 rapaduras = nota 7,0.

domingo, 8 de outubro de 2017

NOS CINEMAS - Blade Runner 2049

Por Rafael Morais
               
30 anos após os acontecimentos do primeiro longa, a Los Angeles distópica do visionário Ridley Scott continua ácida, sombria e repleta de espécimes dos mais diversos tipos. Nesta aguardada sequência do clássico cult, a direção ficou por conta do inspirado, e em ascensão, Dennis Villeneuve, enquanto que Scott cuidou da produção. E o cara não deixou a desejar. Com a difícil missão de mexer no “vespeiro” que é um filme icônico do nostálgico anos 80, Villeneuve sabia que para não cair numa "armadilha" o certo seria respeitar o que já foi realizado, expandir o universo e apresentar novos personagens. E foi exatamente isso que ele fez.

Como o próprio título diz, estamos no ano de 2049 e os replicantes da geração passada são caçados e "aposentados" compulsoriamente para dar espaço aos novos modelos. Neste contexto, conhecemos o policial K/Joe (Ryan Gosling), o novo oficial caçador de androides. Envolto numa trama típica de noir, o agente deve enfrentar uma perigosa investigação em busca da verdade por trás do mistério acerca do surgimento de uma “ossada” reveladora, durante uma side quest logo no prólogo.  

Preocupado em não estragar o mistério que rodeia o inteligente script escrito por Michael Glenn e Hampton Fancher, este texto não esmiuçará o filme, portanto, está livre de spoilers. Deste modo, importante valorizar aqui o minucioso trabalho de fotografia do mestre Roger Deakins, capaz de situar o espectador no tempo e espaço, captar a alma cyberpunk do seu antecessor e reproduzir enquadramentos contemplativos e, simultaneamente, reveladores. E o estilo gráfico de lutas e/ou diálogos em contraluz são um dos meus favoritos. Perceba também a paleta de cores utilizada que se harmoniza com a premissa: a cor laranja para ambientes tomados por radiação, o azul e vermelho neons para a cidade hightech pós-apocalíptica (blecaute, como eles chamam) e o cinza dessaturado para regiões interioranas, não menos devastadas.

E por falar em metrópole, a utilização de planos aéreos, já característica do cineasta - quem já leu algum outro texto que escrevi sobre a filmografia de Villeneuve perceberá a recorrência dessa técnica, ao tempo em que notará que sou um grande fã de suas obras – situa o espectador na atmosfera claustrofóbica de uma cidade suja e sem vida, em todos os sentidos, e refém da tecnologia, quando enclausura seus moradores em blocos de concretos que, vistos de cima, lembram compactações de lixo ou tralhas, mas que servem ali para amealhar vidas. E não é à toa o massivo emprego de holografia, como se a dura realidade não bastasse e o que era bom já passou, agora virtual, o que traz um tom de nostalgia à ambientação.

E o mérito para esse “Blade Runner 2049” funcionar, além de seu roteiro redondo, se deve também à habilidade de Villeneuve em construir o clímax, paulatinamente, sem pressa alguma, utilizando planos detalhes e longos, com poucos cortes (o que era pra tornar entediante, já que foge dos padrões de blockbuster’s hollywoodianos repleto de cortes frenéticos para facilitar o consumo expresso) imergindo o público ao ponto de não nos fazer cansar, muito menos sentir as mais de duas horas de projeção. Assim, a espetacular trilha sonora do genial Hans Zimmer acrescenta à linguagem narrativa proposta quando ganha um crescente de tensão. Notas de suspense nas entrelinhas dos agudos distorcidos; toques monofônicos de uma sociedade refém da tecnologia; distopia em forma de notas musicais graves: assim é a composição de Zimmer.

O elenco, por sua vez, também merece destaque. Harrison Ford, surpreendentemente, apresenta novas camadas ao seu velho e bom Deckard entregando uma de suas melhores performances em tempos. Ryan Gosling (K/Joe) e Ana de Armas (Joi) distribuem carisma e fazem com que nos importemos com o final do casal. Sylvia Hoeks (Luv) como a capanga de Wallace (Jared Leto em uma atuação inesperadamente contida) é performática e expressiva ao ponto de nos passar senso de perigo/urgência durante suas ações.

PENSO, LOGO EXISTO...
Blade Runner 2049 aborda conceitos de inteligência artificial e orgânica, os dois lados da mesma moeda, consegue ser visceral na sua ação, muito mais voltada para o existencialismo filosófico dos seres que se embatem, do que nos conflitos do músculo, das explosões ou da profusão de sangue. Estamos diante de um filme obrigatório não só para os fãs do gênero de ficção científica, mas para quem gosta de cinema. Uma verdadeira experiência cinematográfica que nos faz sair da sala pensando, o que já é um diferencial para a maioria das produções atuais.
*Avaliação: 5 pipocas + 5 rapaduras = nota 10,0.

domingo, 24 de setembro de 2017

EM CARTAZ: Mãe!

Por Rafael Morais
24 de setembro de 2017

Um escritor (Javier Bardem) se refugia com a sua mulher (Jennifer Lawrence) no intuito de recomeçar a vida após um incêndio que teria acabado com a sua residência. Paralelo a isso, o sujeito também busca inspiração para escrever o seu novo trabalho, sofrendo um bloqueio criativo depois dessa tragédia. Com o passar do tempo, visitantes “inesperados”, mas, necessários (Ed Harris e Michelle Pfeiffer) surgem para visitar o casal, acabando com a rotina de paz e marasmo.

Baseado nesta premissa, que parece simples, o cineasta e roteirista Darren Aronofsky aborda as intempéries do processo criativo de um artista através de metáforas do início ao fim. De antemão, aviso que mais à frente entrarei com spoiler’s (avisarei), visto que é uma tarefa árdua falar sobre esse filme sem adentrar nos seus meandros. E essa dificuldade ocorre justamente pelo fato de cada personagem ou objeto de cena significar algo ou alguma coisa, sem jamais oferecer interpretações diversas, ou terceiras leituras, sob pena de se perder a principal mensagem que o filme quer passar.

Neste sentido, o marketing peca em vender um produto de drama envolto num universo fantástico sombrio, com toques de suspense, é bem verdade. Campanha de divulgação desonesta, pautada num terror/horror, comparando até com “O Bebê de Rosemary”, esta referência não se coaduna com a obra, com exceção do figurino preto dos visitantes, bem como os olhares bizarros, ansiosos e contemplativos, tudo ao mesmo tempo, em volta da figura da esposa e o que ela pode gerar. De resto, este novo filme de Aronofsky flerta mais com David Lynch em Império e/ou Cidade dos Sonhos, por exemplo, do que propriamente com Polanski.

Deste modo, escolhendo seguir a personagem de Lawrence (sim, quase todas as personas não são batizadas por nomes, mas, sim pelo que estão representando) desde o seu despertar até o desfecho, a câmera de Aronofsky é fixada no ombro da mulher e a persegue por todos os caminhos. Assim, o uso de steadcam auxilia na captação dos passos da coprotagonista, além da utilização de movimentos de travelling para dar a falsa sensação de que tudo gira em torno daquela mulher. O que não deixa de ser verdade, em partes. É ela, a musa inspiradora do artista, que move o longa pra frente, sendo constantemente abordada fisicamente na figura de uma mulher idealizada em poucas roupas, corpo esbelto, curvas acentuadas, pele macia e busto farto, tal qual uma imagem sacra, no estilo barroco. Sempre disposta a ajudar o seu marido, quase incapaz de lhe dar um não como resposta, temos uma figura resiliente e necessariamente catártica.

----------------------------------------- SPOILER ALERT!  ------------------------------------------------

“Eu Sou o que Sou” (Êxodo 3:13-14), diz Deus a Moisés. E o escritor, lá pelas tantas, quando perguntado quem ele era, solta a mesma frase. Na verdade, Aronofsky empresta a “Mãe!” um tom alegórico, permeado por signos, guardando interpretações e referências bíblicas para estruturar uma comparação com as diversas formas de criação. Se por um lado, temos um artista passando por uma crise de falta de criatividade, de outro, depois de superado um carrossel de emoções - uma ode à loucura introspectiva na cabeça de um autor - vimos o ápice da sua criação, sua masterpiece: revelando-se uma obra perfeita e acabada que mudará a vida daqueles que a consumirem, literalmente. Assim, o bebê “devorado” pelo público se desponta como um símbolo da obra finalizada e ligeiramente consumida, como um sacrifício de um homem que entrega o seu filho para a humanidade. E isso não lembra a história de Jesus, enquanto cordeiro imolado?! Portanto, não à toa, o plano faz menção ao corpo e sangue entregue aos sedentos.

Desta forma, há uma personificação literal do encontro/relação entre o artista que encontra sua musa inspiradora e concebe um filho com ela, a obra deixada para posteridade. Um livro, filme, música ou quadro (obra de arte qualquer) depois de publicada não passa mais a ser de quem a criou, mas do povo. Quem nunca ouviu aquela expressão: “isso foi um parto”, após um trabalho árduo?! Tudo isso em "Mãe!" é elevado à enésima potência.

Crítica, público, indústria (a editora chamada Herald vivida por Kristen Wiig – sim, esta tem um nome) e artista vivem constantemente esse embate pela publicação e aceitação das novas obras, do lançamento. O consumismo é invasivo e isso é bem representado em tela, como na sequência em que os fãs caminham pela pastagem verde, todos de preto, alienados, se dirigindo até a casa do seu ídolo para cobrar o produto (um poema, neste caso) e venerar o resultado final, traçando uma analogia imediata, na cabeça de um cinéfilo, com “A Noite dos Mortos-Vivos”, do saudoso George Romero.

O sacro e o humano se fundem em tela, evidenciando que aqueles personagens são frutos da criação do “poeta”. Perceba pela justaposição de imagens e o jogo de posicionamento de câmera, que o “fã” vivido por Ed Harris senta ao lado de seu “ídolo”, e num enquadramento magistral, o cineasta capta o corpo de Harris saindo do perfil de Bardem, como se o concebesse. Genial! 

Não menos espetacular, a simbologia do diamante bruto dando vida à casa (local das ideias do artista, seu cérebro inquietante) torna a imagem reveladora de tudo o que estar por vir. Ainda na busca por significados, temos a representação da primeira família que viveu no paraíso (termo utilizado pela esposa se referindo ao lar) nas personas de Harris e Pfeiffer como Adão e Eva, e os seus filhos Brian Gleeson, o caçula, sendo assassinado pelo irmão mais velhoDomhnall Gleeson, após travarem uma luta, uma espécie de Cain e Abel.

Com um pé na “Divina Comédia” de Dante Alighieri, quando retrata o Inferno em fases, o ciclo da criação é completado com a jornada daquela musa se desfazendo aos poucos, queimando lentamente, para dar lugar a um novel período de descobertas e inventividades, onde outra criatura inspiradora, com corpo e rosto diverso, mas não menos idealizado, chegará para impulsionar a vida de seu criador.

*Avaliação: 4,5 pipocas + 5,0 rapaduras = nota 9,5.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

NOS CINEMAS - Atômica

Por Rafael Morais
18 de setembro de 2017

Charlize Theron está cada vez mais furiosa, diz o cartaz. E isso não é só uma referência direta à sua personagem em “Mad Max: Estrada da Fúria”, uma vez que a atriz vem escolhendo papeis cada vez mais badass. E aqui em “Atômica” não é diferente. A parceria com o diretor David Leitch (corresponsável pelo excelente John Wick) rendeu uma ótima obra de ação, podendo decepcionar quem estiver esperando um filme de espionagem puro. A trama é bem simples: perto da queda do muro de Berlim, EUA, Inglaterra, França e União Soviética disputam informações privilegiadas quando um agente da MI6 é assassinado e tem uma importante lista roubada.

Assim, Lorraine Broughton, a agente especial vivida por Theron tem uma missão principal e uma side quest bem delineada:  resgatar a lista e identificar o agente duplo de nome Satchel é o seu mister. Neste sentido, a película tem um primeiro ato sofrível quanto ao ritmo da narrativa, vindo a melhorar drasticamente nos seus demais atos. Banhado por uma fotografia dessaturada, guardando na utilização de néons com cores quentes e vivas, fazendo assim uma quebra do tom cinza, gélido e azulado que impera, sobretudo, na Alemanha Ocidental, Atômica acerta em cheio na ambientação diferenciando com precisão ambos os lados do muro. Especialista em coreografia de lutas, Leitch consegue aprimorar a fórmula de "De Volta ao Jogo", como no impressionante plano-sequência que se inicia durante uma pancadaria na escadaria, finalizando com uma alucinante perseguição de carro. Sem cortes aparentes, este plano longo lembra aquele que vimos no magistral “Filhos da Esperança” de Alfonso Cuarón, por exemplo, tamanha a complexidade da continuidade da ação, ininterrupta, de quase uns 20 minutos.

Outro show à parte é a excepcional trilha sonora que casa com a época. Os anos 80/90 são representados por bandas que vão de New Order a Queen (Under Pressure oferece uma catarse sonora) e as músicas equalizam as cenas ao passo que marcam o ritmo das ações. Sem oferecer glamour à figura do espião, a maquiagem soa orgânica ao auxiliar na desconstrução da "heroína", expondo os hematomas, as feridas e as marcas deixadas a cada embate. Demonstrando ter uma boa base cinematográfica, Leitch referencia o diretor russo Andrei Tarkovski, diretamente, através dos cartazes do filme “Stalker” espalhados pelo cinema quando Lorraine enfrenta os seus inimigos. Se em Stalker a queda de um meteorito cria um local onde os sonhos se realizam, porém, ambientes este restrito apenas a alguns (chamado de Zona e quarto), aqui em “Atômica” a metáfora é emprestada com a queda do muro e as consequências político-sociais.

Visualmente impecável e explorando a violência gráfica, o longa reserva cenas de ação clássica como aquela em que Lorraine enfrenta um russo em contraluz, por detrás da tela de um cinema. Não menos interessante, o elenco entrega interpretações convincentes, sobretudo o David Percival do performático James McAvoy. Sujeito estranho, camaleônico e complexo, o agente conhece os lados opostos de Berlim, como a palma da sua mão, tornando-se um típico produto do meio. No mais, apesar de um roteiro raso, desprovido de mistério, “Atômica” funciona enquanto filme de ação e ratifica ainda mais o posto de Charlize como uma atriz versátil e ícone “Girl Power” da nova geração.

*Avaliação: 4,0 pipocas + 3,5 rapaduras = nota 7,5

sábado, 9 de setembro de 2017

NOS CINEMAS - It: A Coisa

Por Rafael Morais
09 de setembro de 2017

Um grupo de jovens é atormentado por uma entidade maligna, representada por diversas formas, guardando na figura do palhaço dançarino Pennywise a sua principal representação. Ancorado nesta premissa, este remake de "Uma obra-prima do medo", de 1990, se revela necessário tanto pelas questões técnicas (efeitos visuais aperfeiçoados, maquiagem caprichada e direção de arte impecável) quanto pelo valioso subtexto abordado, tão em voga atualmente: o bullying sofrido pelos heróis e a representatividade das minorias, através das diferentes raças, credos e culturas do clube dos "perdedores".

Na verdade, o roteiro escrito por Gary DaubermanChase Palmer e Cary Fukunaga conseguiu captar o espírito do livro de Stephen King ao  estabelecer uma química entre os membros do grupo ao passo que expõe, gradualmente, as limitações e problemáticas de cada um. Repleto de alegorias sobre a difícil fase “mutante” que é a adolescência, o filme, de maneira proposital, desfoca a visão do adulto como um ser implacável com as suas crianças, além de alienados ao que está acontecendo à sua volta. E aqui, o cinema sob o ponto de vista freudiano pesa a mão nas relações pais e filhos. O universo em "It - A Coisa" é focado exclusivamente sob a perspectiva do universo infanto-juvenil, em que pese a atmosfera de terror que toma a película.

Assim, o diretor Andy Muschietti captura cenas icônicas de uma juventude em constante transformação por meio de tomadas que evocam a amizade, os desafios e a maturidade precoce. Lembrando "Conta Comigo", também de King, neste aspecto - quando caminham pela floresta, andam de bicicleta pelas ruas e tramam planos mirabolantes - o cineasta tem ótimas e certeiras referências. E "A Hora do Pesadelo" de Wes Craven também é uma delas. Perceba o tom onírico das sequências de assombração que remetem àquelas situações em que Freddy Krueger escolhia sua presa, sempre solitária e indefesa. Contudo, se lá soava orgânico o fato da vítima estar dormindo, e, portanto, havia uma lógica para o pesadelo ser um evento individual e descolado da realidade; aqui em "It" cada sequência de terror parece um videoclipe à parte, o que não ajuda na construção do todo, na misancene, podendo transparecer um viés episódico ao longa, coisa que o cinema evita a todo custo.

Isso também acontece graças ao terror estilosamente gráfico. Esqueça o medo psicológico ou intimista, aqui o gore rola solto e o monstro apresenta suas garras, literalmente. O suspense não andou lado a lado com o terror, aniquilando a preparação para o “sentir medo”. E por falar em medo, como a entidade nefasta se alimenta dele, é curioso notarmos a inventividade da direção de arte em criar lugares e figuras macabras para cada tipo de situação. Esgotos, escolas, quartos e porões fazem parte do imaginário popular, dos contos sombrios, fato não esquecido pelo script, muito menos pelo olhar apurado do diretor. Neste sentido, adaptando-se individualmente a cada tipo de fobia, variando de acordo com o personagem, chove criatividade em tela, como por exemplo: o leproso que assombra uma criança hipocondríaca; os traumas de uma tragédia do passado que voltam à tona no presente; o ciclo menstrual de uma garota entrando na puberdade (e a cena do banheiro é uma das minhas favoritas) que enfrenta o preconceito da sociedade dentro e fora de casa, apenas por ser mulher; e claro, o medo de palhaço. E assim chegamos a Pennywise.

Interpretado com maestria por Bill Skargard, o palhaço é freaky na medida, além de carregar nas expressões corporais e faciais um trunfo para a composição perfeita de um ser macabro. Entregando doçura para atrair uma criança e insanidade para fazê-la sentir medo, no mesmo quadro, como uma entidade sempre prestes a explodir, Pennywise parece estar onipresente tanto fisicamente, quanto em cada ato eivado de maldade. Note o balãozinho vermelho (a cor do perigo) que passeia perto de um personagem que acabara de praticar o mal ou omitir uma ajuda, como na sequência em que uma criança obesa é gravemente agredida por seus perseguidores, fato presenciado por um casal de senhores que passa de carro no momento e nada faz para ajudar a indefesa vítima. Desta forma, o símbolo surge no banco de trás do carro indicando que a figura de um clow é apenas uma das formas de malignidade.

O elenco mirim, por sua vez, é carismático e talentoso ao ponto de Amblin nenhuma botar defeito. E quando me refiro à empresa responsável por um dos melhores filmes de aventura dos anos 80 não é à toa. O filme nos mergulha nesta época, flertando com o jeitão datado de um cine trash ou sessão da tarde (“Os Goonies” estão ali), ocasião em que a nostalgia nos pega de jeito. Spielberg que o diga...

Divertido mais do que aterrorizante, o longa deixa um gostinho de quero mais, muito embora tenha duas horas e quinze minutos de duração. De tal modo, até a fotografia solar explicita o tom aventuresco em detrimento do terror, uma vez que a maioria das cenas se passa à luz do sol, durante o verão, sem se preocupar com a mudança para uma possível paleta mais dark ou ambientes escuros.

Enfim, preparando terreno para a vindoura parte II (e espero que não se passe mais 27 anos, apesar desta data ser uma referência direta aos acontecimentos do filme), o desfecho amarra as pontas soltas, se é que tinha alguma, e cria expectativa para o que pode vir no futuro, uma vez que o medo não é privilégio apenas de crianças, muito pelo contrário. E você, tem medo de quê?

*Avaliação: 5,0 pipocas + 4,0 rapaduras = nota 9,0