segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GLOBO DE OURO 2017 - Conheça os vencedores

Por Rafael Morais
09 de janeiro de 2017

*REPOST DO SITE OMELETE

Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood realizou neste domingo, 8 de janeiro, o anúncio e entrega das estatuetas do Globo de Ouro de 2017. A cerimônia, que revelou os melhores do cinema e da televisão, foi apresentada por Jimmy Fallon (The Tonight Show starring Jimmy Fallon).
La La Land foi o filme mais premiado da noite, levando sete estatuetas para casa e quebrando o recorde de mais premiado pelo Globo de Ouro. Nas séries, The Night Manager ficou no topo com três prêmios.
Confira os vencedores, marcados em negrito, abaixo:

CINEMA

Melhor Filme de Drama 
  • Moonlight
  • Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
  • A Qualquer Custo (Hell or High Water)
  • Lion
  • Manchester à Beira-Mar
Melhor Atriz em Filme Dramático
  • Isabelle Huppert - Elle
  • Amy Adams - A Chegada
  • Jessica Chastain - Miss Sloane
  • Ruth Negga - Loving
  • Natalie Portman - Jackie
Melhor Ator em Filme Dramático
  • Casey Affleck - Manchester à Beira-Mar
  • Joel Edgerton - Loving
  • Andrew Garfield - Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
  • Viggo Mortensen - Capitão Fantástico
  • Denzel Washington - Fences
Melhor Filme de Comédia ou Musical
  • La La Land: Cantando Estações
  • 20th Century Women
  • Deadpool
  • Florence, Quem é Essa Mulher?
  • Sing Street
Melhor Atriz em Comédia ou Musical
  • Emma Stone - La La Land: Cantando Estações
  • Annette Bening - 20th Century Women
  • Lily Collins - Rules Don’t Apply
  • Hailee Steinfeld - The Edge of Seventeen
  • Meryl Streep - Florence, Quem é Essa Mulher?
Melhor Diretor 
  • Damien Chazelle - La La Land: Cantando Estações
  • Tom Ford - Animais Noturnos
  • Mel Gibson - Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
  • Barry Jenkins - Moonlight
  • Kenneth Lonergan - Manchester à Beira-Mar
Melhor Filme em Língua Estrangeira
  • Elle (França)
  • Divines (França)
  • Neruda (Chile)
  • The Salesman (Irã, França)
  • Tony Erdmann (Alemanha)
Melhor Longa Animado 
  • Zootopia - Essa Cidade é o Bicho
  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Moana: Um Mar de Aventuras
  • My Life as a Zucchini
  • Sing: Quem Canta Seus Males Espanta
Melhor Roteiro
  • La La Land: Cantando Estações - Damien Chazelle
  • Animais Noturnos - Tom Ford
  • Moonlight - Barry Jenkins
  • Manchester à Beira-Mar - Kenneth Lonergan
  • A Qualquer Custo (Hell or High Water) - Taylor Sheridan
Melhor Ator em Comédia ou Musical
  • Ryan Gosling - La La Land: Cantando Estações
  • Colin Farrell - The Lobster
  • Hugh Grant - Florence, Quem é Essa Mulher?
  • Jonah Hill - Cães de Guerra
  • Ryan Reynolds - Deadpool
Melhor Atriz Coadjuvante 
  • Viola Davis - Fences
  • Naomie Harris - Moonlight
  • Nicole Kidman - Lion
  • Octavia Spencer - Estrelas Além do Tempo
  • Michelle Williams - Manchester à Beira-Mar
Melhor Canção Original
  • City of Stars - La La Land: Cantando Estações
  • Can't Stop the Feeling - Trolls
  • Faith - Sing: Quem Canta Seus Males Espanta
  • Gold - Ouro e Cobiça
  • How Far I’ll Go - Moana: Um Mar de Aventuras
Melhor Trilha Sonora Original
  • La La Land: Cantando Estações
  • A Chegada
  • Lion
  • Moonlight
  • Estrelas Além do Tempo
Melhor Ator Coadjuvante
  • Aaron Taylor-Johnson - Animais Noturnos
  • Mahershala Ali - Moonlight
  • Dev Patel - Lion
  • Jeff Bridges - A Qualquer Custo (Hell or High Water)
  • Simon Helberg - Florence, Quem é Essa Mulher?

TV

Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical
  • Donald Glover - Atlanta
  • Anthony Anderson - Black-ish
  • Gael Garcia Bernal - Mozart in the Jungle
  • Nick Nolte - Graves
  • Jeffrey Tambor - Transparent
Melhor Série Dramática
  • The Crown
  • Game of Thrones
  • Stranger Things
  • This Is Us
  • Westworld
Melhor Atriz em Série Dramática
  • Claire Foy - The Crown
  • Catriona Balfe - Outlander
  • Keri Russell - The Americans
  • Winona Rider - Stranger Things
  • Evan Rachel Wood - Westworld
Melhor Ator em Minissérie ou Filme para TV
  • Tom Hiddleston - The Night Manager
  • Courtney B. Vance - The People vs O.J. Simpson: American Crime Story
  • Riz Ahmed - The Night Of
  • Bryan Cranston - All The Way
  • John Turturro - The Night Of
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para TV
  • Olivia Colman - The Night Manager
  • Lena Headey - Game of Thrones
  • Chrissy Metz - This Is Us
  • Mandy Moore - This Is Us
  • Thandie Newton - Westworld
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para TV
  • Hugh Laurie - The Night Manager
  • Sterling K. Brown - The People vs O.J. Simpson: American Crime Story
  • John Lithgow - The Crown
  • Christian Slater - Mr. Robot
  • John Travolta - The People vs O.J. Simpson: American Crime Story
Melhor Minissérie ou Filme para TV
  • The People vs O.J. Simpson: American Crime Story
  • American Crime
  • The Dresser
  • The Night Manager
  • The Night Of
Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV
  • Sarah Paulson - The People vs O.J. Simpson: American Crime Story
  • Felicity Huffman - American Crime
  • Riley Keough - The Girlfriend Experience
  • Charlotte Rampling - London Spy
  • Kerry Washington - Confirmation
Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical 
  • Tracee Ellis Ross - Black-ish
  • Rachel Bloom - Crazy Ex-Girlfriend
  • Julia Louis Dreyfuss - Veep
  • Sarah Jessica Parker - Divorce
  • Issa Era - Insecure
  • Gina Rodriguez - Jane The Virgin
Melhor Série de Comédia ou Musical 
  • Atlanta
  • Black-ish
  • Mozart in the Jungle
  • Transparent
  • Veep
Melhor Ator em Série Dramática
  • Billy Bob Thornton - Goliath
  • Rami Malek - Mr. Robot
  • Bob Odenkirk - Better Call Saul
  • Matthew Rhys - The Americans
  • Liev Schreiber - Ray Donovan

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NOS CINEMAS - Rogue One: Uma História Star Wars


Por Rafael Morais
19 de dezembro de 2016

Logo no início do episódio “IV – Uma Nova Esperança” descobrimos que a princesa Leia recebe os planos de uma potente arma, construída pelo Império, capaz de exterminar planetas inteiros. Mas como a planta dessa bomba foi parar no colo da líder da rebelião? Pronto, é aí que “Rogue One – Uma História Star Wars” entra em cena como um derivado da franquia contando a história do esquadrão de rebeldes que rouba os planos da “Estrela da Morte”, se encaixando, cronologicamente, entre os episódios III e IV. Disposto a ser um capítulo à parte, o filme tenta se desvencilhar da sequência desde a introdução. Portanto, esqueça aqueles letreiros com a fonte clássica, em amarelo negrito, subindo no estilo slide up ao som da trilha de John Williams.

Desta forma, neste prelúdio, somos apresentados a Galen Erso (Mads Mikkelsen), um notável cientista forçado a trabalhar para o Império no setor bélico, tendo a sua família dizimada por não querer contribuir com este poder sombrio que derrubara a República. Com exceção da sua filha Jyn Erso, que ainda criança foge para sobreviver, se transformando em uma rebelde nata.

Recheado de personagens, o roteiro guarda nos coadjuvantes Chirrut Îmwe (Donnie Yen), Baze Malbus (Wen Jiang) e no carismático droide K-2SO o seu trunfo, já que a protagonista Jyn, vivida pela superestimada atriz Felicity Jones, não consegue cativar o espectador (pelo menos a mim). Em momento algum sentimos a dor, ou somos convencidos da motivação da heroína, apesar de estar lá. Já Diego Luna traz uma tridimensionalidade ao seu Cassian Andor, aproveitando melhor as nuances de sua persona.

Com um segundo ato inchado, o filme se arrasta por diversos planetas, mas se fixa em Saw Guerrera (o oscarizável Forest Whitaker), um rebelde extremista, que nem mesmo a Aliança o reconhece, para traçar - com muito esforço e boa vontade do público que queira enxergar esse pano de fundo - um paralelo da guerra e suas motivações com o que vivemos hoje em dia. Afinal, os terroristas são sujeitos que não reconhecem um poder ditatorial/imperial e lutam pela sua liberdade? Ou findam paranoicos deturpando os valores e cometendo atos de extrema intolerância, muitas vezes visando assumir este poder? A linha parece tênue e dialoga com a alarmante situação atualmente, sobretudo no Oriente Médio, refletindo na América e Europa através de sucessivos atentados. Contudo, o Império em Star Wars merece ser combatido por construir, comprovadamente, uma arma de destruição em massa colocando a vida de todos em risco, já que quem discordasse dos seus objetivos seria dizimado. Ok, mas essa não era uma das desculpas utilizadas pelos Estados Unidos como subterfúgio para invadir o Iraque em 2003?

Entretanto, voltando ao filme, temos um script bem dosado na utilização de gag’s e dos elementos dramáticos, sem o surgimento de piadas deslocadas (e tem uma de humor negro impagável) ou dramalhão desnecessário. A fita é sobre guerra e tem ciência disso. Comovente também em momentos pontuais, o instante em que associamos o apelido carinhoso que um pai dar à sua filha (Galen à Jyn), com o nome de uma arma catastrófica, principal vilã, é de uma sutileza ímpar.

Por sua vez, o diretor Gareth Edwards captou a essência de Guerra nas Estrelas ao reproduzir cenários reais, animatrônicos, harmonizando com a computação gráfica clean, respeitando a essência dos personagens, em detrimento do abuso de CGI’s e um tal “Jar Jar Binks”, pecados que George Lucas cometeu nos episódios I a III. Ao desconstruir alguns mitos concebidos na trilogia clássica, como o menino Vader na pele do meigo Jake Llloyd, Lucas parece não ter se encontrado com o próprio universo que construiu: teria sido uma crise de identidade ou o interesse de caça-níquel falou mais alto?

O fato é que “Rogue One” é um prato cheio não só para os fãs do universo estendido de Star Wars, como também para os que conhecem apenas o básico. A ação é filmada com excelência tanto no ar (Tie Fighter’s e Aliança travam duelos épicos no espaço), quanto em terra firme (os At-At’s nunca foram tão ameaçadores e verossimilhantes). Inclusive, a batalha na praia é uma das cenas mais legais de toda a saga! Neste quesito, a fotografia de Graig Fraser conversa com os efeitos visuais, tornando o frame a frame lindo em cada quadro. E por mais que não vejamos jedis ou lutas de sabres, há uma atmosfera instaurada que grita Star Wars. Sentimos a presença de Obi Wan, apenas em uma rápida menção que nem sequer cita o seu nome – o serviço ao fã é a razão de existir deste spin-off - e a “Força”, como um mantra que motiva a trupe, está lá para quem quiser sentir.

Ao final, com um terceiro ato irretocável, este corajoso título resgata a essência da trilogia clássica, revigorada por uma sequência de suspense claustrofóbica com Darth Vader no centro da ação, contribuindo ainda mais para a mitologia de um dos maiores vilões da história do cinema.                           


*Avaliação: 4,0 pipocas + 4,0 rapaduras = nota 8,0.                                                                                      

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

TEATRO - Potter

Por Rafael Morais
01 de dezembro de 2016

Ok, eu confesso: não sou fã da saga Harry Potter nos cinemas; e sou ex-aluno do Colégio Dom Quintino, com muito orgulho! Dito isso (ufa, precisava desabafar!), o Festival de Dança do DQ deste ano trouxe o tema “Potter” através de uma linda montagem teatral, capaz de nos levar do Expresso às dependências da escola de Hogwarts. Como não lembrar os irmãos Lumiére com o seu filme experimental: “A Chegada do Trem”, enquanto acompanhamos, logo no início da peça, a estação e os personagens que passamos a seguir? Para um cinéfilo, as referências pipocam na cabeça.

Assim, acostumado a assistir, todo ano, aos magníficos festivais do Colégio, percebemos a diferença no cenário, desta feita em sua maior parte digital - por meio de um enorme telão em alta resolução - o que configura um acerto por parte da direção de arte do espetáculo, afinal de contas rivalizar com as suntuosas locações dos filmes se tornaria inviável. Mesmo assim, quando surge um efeito prático, um objeto de cena físico, vislumbramos o belo trabalho do artista plástico Raimundo Dias Vieira (o talentoso Jocieldo) tomando conta do ambiente e nos imergindo ainda mais na história.

O que dizer do figurino caprichado e das cartinhas caindo do céu, literalmente, interagindo com o público a atmosfera lúdica proposta? Fantástico! E como estamos falando de um evento escolar, imagino a emoção dos pais presenciando as suas pequenas vestidas de maquinistas ou de porções mágicas: uma fofura sem tamanho!

Mérito também para a excelente escolha das canções, que passeia pela própria trilha sonora da franquia, épica por excelência, passando por um dance eletrizante, até as repaginações de Boyce Avenue, tudo na medida. Na verdade, a utilização de músicas anacrônicas, uma das características do Festival em todas as suas edições, não só auxilia na ritmização, como também empolga o espectador. Buscar regravações de um som extremamente conhecido traz frescor e jovialidade à montagem.

Contudo, como vivemos na era dos cosplay’s, gostei da entrega dos alunos ao pintarem o cabelo nas cores de suas personas, trazendo um toque de verossimilhança. Porém, senti falta do protagonista não estar com o corte /penteado parecido com o do Harry, por mais que a armação redondinha dos óculos ajude a lhe identificar. Todavia, a maquiagem merece aplausos na composição do vilão Voldemort e do elfo Dobby, especialmente.

O ballet, o jazz e a dança contemporânea são estilos muito bem representados na coreografia de Gorete Maia e Jessé Anastácio. A expressão corporal carrega vigor, paixão e sensibilidade, quando necessário. Não deve ser fácil ensaiar e controlar aquela garotada, sobretudo a ansiedade.

Por fim, as irmãs Melissa e Milena Mangueira, responsáveis pela direção geral do Festival, podem se sentir orgulhosas do trabalho realizado, pois, entre outras conquistas, conseguiram despertar em mim a vontade de dar uma segunda chance à filmografia do bruxinho. Ou será que ainda estou sob os efeitos da magia a que fui submetido no teatro há dois dias? 

*Avaliação: 5 pipocas + 5 rapaduras = nota 10.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

NOS CINEMAS - A Chegada

Por Rafael Morais
25 de novembro de 2016

“Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?”. Eis um questionamento do filósofo alemão Nietzsche que, entre tantas outras ponderações, vem a dialogar com o novo trabalho do cineasta canadense Dennis Villeneuve. Audacioso, no bom sentido, intrigante e filosófico, “A Chegada” não subestima em nenhum momento o espectador, demonstrando uma autoconfiança invejável do diretor e do roteirista Eric Heisserer, principalmente neste gênero de filme, onde o excesso de didatismo costuma imperar. 

Imagine o mundo tomado, de repente, por doze ovnis espalhados por diversos continentes. Nesse contexto, conhecemos a intérprete/linguista Louise (Amy Adams), que convocada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) faz parte de uma equipe de cientistas, da qual também está o físico/matemático Ian (Jeremy Renner), tudo para tentar traduzir a mensagem dos visitantes inesperados. O desespero das diferentes nações diante do desconhecido, dos militares frente a uma provável ameaça e dos religiosos constatando as suas crenças caírem por terra. Afinal, o que eles querem de nós? Essa é a premissa do longa, capaz de prender a nossa atenção do início ao fim. E muito se deve ao talento de Villeneuve ao abordar a linguagem como força motriz do filme, inclusive a cinematográfica, o que faz com maestria. Brincar com uma montagem não linear, tal qual o conceito de palíndromo (frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa), criando uma identidade harmônica com o que está sendo visto. 

Assim, instigar o público, já curioso por natureza, se torna uma arma (ou seria ferramenta?) na mão do idealizador. Perceba a curiosidade superficial dos personagens em saber o formato dos alienígenas, pelo menos em dois momentos, identificando-se com a do espectador, freando a expectativa e colocando mais suspense no que está por vir: “Eles possuem boca?”, pergunta Louise ao coronel num primeiro momento, sendo abruptamente desconversada pelo militar; “como eles são?”, pergunta Ian a um dos cientistas; “você vai já ver”, responde antes de entrar na câmara. Para quem conhece as outras obras do cineasta, fica fácil observar as semelhanças entre elas. A alta dose de tensão empregada na sequência do carro em “Sicario: Terra de Ninguém” lembra o primeiro encontro dos cientistas com os alienígenas, tudo na perspectiva de Louise. Respiração ofegante, preparação angustiante e esta tensão crescente são digitais do idealizador, tudo somado a lindos planos aéreos, que servem não somente para nos ambientar na geografia do local, como também para lembrar o quão efêmeros somos. E a música de Jóhann Jóhannsson, parceiro habitual na filmografia do canadense, é forjada com os próprios elementos da narrativa, através dos sons emitidos pelos aliens - lembrando “Sinais” do Shyamalan, neste aspecto - compondo a trilha ideal para o clímax. 

Dono de uma fotografia incrível, com referências diretas a “Contato” e “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, sem esquecer “Solaris” e “Interestelar”, o filme sabe onde está pisando, deixando o seu recado para quem quiser ouvir, ou sentir seria mais apropriado?! O fato é que neste misto de suspense com sci-fi há espaço para abordar temas primordiais, principalmente nos dias atuais, tais como: a importância de uma boa comunicação, a utópica união entre os povos, solidariedade, altruísmo, entre outros. Tudo isso sem soar piegas! 

Deste modo, o peso no drama da protagonista é essencial para que compreendamos o sentido da mensagem, tudo construído por elipses que captam os principais momentos de mãe e filha, numa sequência de abertura que lembra um misto de “Up” com “Árvore da Vida”. Aliás, Terrence Mallick pode ser sentido em diversas cenas da fita, desde o toque de um empolgado cientista na concha (como chamam o ovni), bem intimista, até nos enquadramentos que miram a natureza. Ao final, assim como a protagonista se desfez das suas pesadas vestimentas para conseguir se comunicar, dispa-se dos preconceitos, dos estereótipos, e encare o novo: vá ao cinema e experiencie um dos melhores filmes do ano!
*Avaliação: 5 pipocas + 5 rapaduras = nota 10.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NOS CINEMAS - Doutor Estranho

Por Rafael Morais
17 de novembro de 2016

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia". Essa clássica frase do escritor William Shakespeare poderia resumir a mais nova adaptação da Marvel para os cinemas, só que não! Este "Doutor Estranho" fica no meio do caminho e não consegue sair da zona de conforto cinematográfica em que o estúdio tem se ancorado. A tal fórmula do humor empurrado goela  abaixo já passa a incomodar, somado à ausência de urgência/perigo a qual os personagens da Marvel/Disney nunca passaram verdadeiramente. 

A trama da vez gira em torno de um médico arrogante, Stephen Strange (o sempre ótimo e carismático Benedict Cumberbatch), que se vê incapacitado após um acidente de carro. Assim, Strange busca se recuperar de todas as maneiras possíveis, indo parar em Katmandu, onde encontra a “Anciã” (Tilda Swinton desfilando sua versatilidade), através de “Mordo” (Chiwetel Ejiofor). O primeiro ato nos dar a falsa sensação de estarmos diante de algo diferente, principalmente quando somos apresentados a um protagonista sequelado após este grave acidente. O estado das suas mãos e o rosto desfigurado destoa dos filmes de heróis ao qual estamos acostumados. E o diretor Scott Derrickson enquadra com excelência a nova situação de Strange, limitado e angustiado, numa tomada frontal, em primeira pessoa, onde os braços estirados do herói nos colocam numa posição desconfortável, tal qual aquela em que ele vive. O gore está lá, na medida, mas não se anime, pois ele vai desaparecer. 

O fato é que o currículo do cineasta em fitas de terror (“O Exorcismo de Emily Rose”, entre outros) me fez acreditar, previamente, em uma atmosfera sombria, diferente da aquarela que acabou pintando a fotografia do filme. Contudo, para não soar como um desastre completo, a divertida película se destaca em três sequências extremamente bem conduzidas: a iniciação do herói no mundo místico - que explodirá a sua cabeça, sobretudo se assistida em IMAX - precedida de um excelente diálogo com a Anciã; a luta de Estranho com um clã de magos do mal, liderados por Kaecilius (Mads Mikkelsen sendo o Hannibal de sempre), claramente sugada de “A Origem/Inception”, onde o personagem de Joseph Gordon Levitt luta com capangas, em gravidade zero, aqui elevado à enésima potência; e a utilização do “Olho de Agamotto” (uma das tais joias do infinito) no desfecho, ocasião em que o tempo volta em slow motion enquanto a porrada come solta. Aliás, apesar de inúmeros poderes e armas místicas, a boa e velha pancadaria é a solução encontrada pelos magos durante o enfrentamento, o que nos causa estranheza pela falta de criatividade. 

Furos estes que o roteiro escancara ao espectador, sem parcimônia. Observe a necessidade de tudo girar em torno do hospital onde o protagonista trabalha, até mesmo quando este precisa de uma cirurgia delicada e é o seu pior rival, frequentemente humilhado por sua falta de perícia, quem vai realizar o procedimento. E o livro sagrado, objeto importantíssimo, facilmente roubado na abertura do filme pela gangue de Kaecilius? Faltou uma vigilância redobrada ali, ou a Anciã (que já deveria estar “careca de saber”, com a licença do trocadilho) é inexperiente demais para não perceber que isso poderia acontecer? 

Voltando aos aspectos positivos (juro que estou tentando), a trilha sonora, por sua vez, equaliza o tom aventuresco, configurando um acerto dentro da proposta. Repare que o arco do herói, perfeitamente traçado em todos os filmes do gênero, ganha contornos apoteóticos na composição de Michael Giacchino. Por outro lado, parte do elenco, mal aproveitado, traz coadjuvantes sem graça, que vão desde um interesse amoroso sem sal (Rachel McAdams, o que aconteceu com a senhorita depois de o “Diário de uma Paixão”?) a vilões descartáveis e amigos questionáveis. Enfim, não rolou pra mim! Pode ser que a minha expectativa estivesse voltada a mais psicodelias e pirações estranhas, não limitada apenas ao sobrenome do personagem-título.

*Avaliação: 3,0 pipocas + 2,5 rapaduras = nota 5,5.   

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

NOS CINEMAS - O Shaolin do Sertão

Por Rafael Morais
24 de outubro de 2016

Quando "Kung Pow" encontra a molecagem cearense! Assim poderíamos resumir este novo trabalho do cineasta Halder Gomes, o mesmo responsável pelo sucesso de "Cine Holliúdy". Homenageando os filmes japoneses de arte marcial (é chinês, mah!), ops, chineses, "O Shaolin do Sertão" parodia o gênero empregando uma linguagem regionalista, o "cearensês". Neste sentido, a falta de legenda para traduzir o nosso linguajar típico pode prejudicar outras audiências Brasil afora. Assim, em determinadas cenas, até mesmo quem é da região pode se perder tamanha a rapidez na expressão do dialeto, como na sequência em que o protagonista “dialoga” com o seu amigo inseparável, na garupa de uma bicicleta, em busca de um mestre para treiná-lo.

Desta vez, conhecemos a arrumação do padeiro Aluisio Li (Edmilson Filho), um cabra amante do Kung Fu, doidim por filmes de pêia, como aqueles do Bruce Lee. Disposto a enfrentar um valentão, "Tony Tora Pleura" (Fabio Goulart), que desafia qualquer um por cidades interioranas, Li busca aprimorar os seus conhecimentos marciais, até então restritos à imaginação, chegando ao trambiqueiro/mestre Wilson (Falcão e suas filosofias falconéticas) na pele de um chinês fajuto.

Estamos na cidade de Quixadá dos anos 80. Lugar de clima árido, poucos recursos, mas que esconde verdadeiras figuras estereotipadas com precisão por Halder. O político ganancioso, sua esposa viciada em leite condensado (naquela época essa iguaria era restrita àqueles que possuíam muito dinheiro), o assessor com jeitinho afeminado, o bêbado, o palhaço, o valente, o padeiro, a filha do padeiro... Enfim, toda aquela gama de sujeitos, que fazem parte do imaginário popular, está inserida em um roteiro fiel ao contexto histórico, sobretudo aos causos populares. Quem, por exemplo, nunca ouviu falar nesses circos itinerantes que rondavam os interiores com atrações bizarras? Ainda mais quando os lutadores de vale-tudo estavam em decadência e procuravam uma forma de se sustentar financeiramente, além de dar uma renovada na autoestima por ser o mais valente da região. Ainda sobre o script, mesmo que haja uma iniciativa em desenvolver uma crítica ao jeito de se fazer política por aqui, tentando criar mais uma camada, tal pretensão se desfaz ao longo do filme, ficando na superficialidade.

Quanto ao quesito técnico, o filme demonstra um avanço significativo com relação ao antecessor: fotografia caprichada, direção de arte afinada, montagem dinâmica e até mesmo a direção de Halder passou por um aprimoramento. O elenco, bem escolhido, também está em sintonia, porém, a utilização de muitos personagens empalideceu a participação de Dedé Santana, o eterno trapalhão, deixando de explorar a sua principal característica de servir como “escada” para as piadas prontas. Destaque para Piolho (o ator mirim Igor Jansen), assessor de Li para assuntos aleatórios, o menino acompanha o herói em todos os lugares arrancando risadas fáceis com o seu jeito espontâneo de narrar uma história ou “incentivar moralmente” o amigo nos momentos mais difíceis. Sem dúvida, um verdadeiro achado para o cinema nacional! E o que dizer do fanho interpretado por Haroldo Guimarães?! O cara simplesmente rouba a cena toda vez que surge em tela, assim como fez em Cine Holliúdy. Já Tirulipa achou melhor (não sei se por escolha própria ou do diretor) ficar na zona de conforto ao homenagear o pai, Tiririca, quando era palhaço no início da carreira, reproduzindo-o “esculpido em Carrara”, o que não deixa de ser hilário!

Deste modo, como bom cinéfilo que se preze, o diretor não perde tempo em prestigiar suas memórias afetivas quando emula a projeção do VHS sempre que Aluisio Li sonha estar dentro de algum destes filmes com o título ou subtítulo de Dragão. A metalinguagem continua sendo explorada com eficiência pelo idealizador. As referências vão de Mazzaropi a Ariano Suassuna, de Chaplin passando por Tarantino com um toque de contemporaneidade na violência gráfica. Na verdade, o tom lúdico das lutas traz frescor à película e evidencia o propósito do cineasta em fazer um filme sobre memórias, jamais puramente de ação, apesar de se sair bem neste aspecto. Observem a cena do bar: enquanto a pêia come solta, a trilha sonora diegética (construída pelo som ambiente) da sequência, é composta por uma bandinha de forró pé-de-serra com Dorgival Dantas no comando de uma sanfona. Isso traz à tona o tipo de cinema que Halder deseja fazer, e que vem dando certo: um liquidificador de guloseimas pop estrangeiras batidas com pitadas de rapadura e um punhado de baião de dois.

E se o resultado funciona, muito se deve à entrega de Edmilson Filho ao seu herói improvável. Apesar de o ator já ser um lutador, e isso ajuda nas coreografias (arquitetadas por ele, inclusive), é na expressão física/corporal, emocional e no suor, literalmente, que o protagonista ganha o público. Edmilson traz humanidade ao seu Aluisio na ânsia de ser um vitorioso, no que pese virar alvo de piada na cidade inteira. O sujeito é arengado - sofre bullying, nos termos atuais - por todos constantemente e nem por isso deixa de acreditar nos seus sonhos. Piegas, todavia uma realidade dos sertanejos forjados nas adversidades climáticas, nas desigualdades sociais, e que nem por isso deixam de driblar estas situações com o bom humor nato! Que venham mais Shaolins e Holliúdys, à la nosso cinema paradiso da Praça do Ferreira; que venham mais Aluisios e Francisgleidsons para nos fazer torar a pleura de tanto rir!

*Avaliação:5 pipocas + 4,5 rapaduras = nota 9,5.