terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Springsteen: Salve-me do Desconhecido

 

Por Rafael Morais

'Springsteen: Salve-me do Desconhecido', dirigido por Scott Cooper, não é uma cinebiografia tradicional, e ainda bem. O filme recusa a tentação do espetáculo fácil, dos grandes palcos, das multidões em êxtase e das narrativas de ascensão gloriosa. Aqui, o foco está justamente no avesso disso tudo: o recolhimento, a dúvida, o trauma e o silêncio que antecedem a criação do álbum 'Nebraska' (1982), talvez o trabalho mais nu, dolorido e honesto de Bruce Springsteen.

O filme entende algo fundamental: antes de ser um astro, Springsteen é um homem tentando sobreviver à própria mente. O sucesso, longe de funcionar como redenção, surge como fator complicador. Crescer assusta. O reconhecimento amplia o vazio. Quanto maior o holofote, mais evidente fica aquilo que ainda não foi resolvido internamente. Cooper constrói essa tensão com delicadeza, apostando menos em diálogos explicativos e mais em gestos, pausas e momentos de solidão quase claustrofóbicos.

Jeremy Allen White entrega uma atuação sensível e contida, que dialoga diretamente com essa proposta. Seu Bruce fala pouco, observa muito e carrega no corpo uma inquietação permanente. Há algo de fragmentado em sua presença: como se o personagem estivesse sempre em fuga, não do mundo externo, mas de memórias que insistem em retornar. O passado, especialmente a relação conturbada com o pai, funciona como um fantasma recorrente. A figura paterna, rígida, silenciosa e emocionalmente inacessível, ecoa como matriz de muitos dos conflitos internos de Bruce. Há ali uma ferida primordial, uma busca incessante por aprovação que jamais veio — e que se transforma em melancolia, culpa e depressão.

O disco 'Nebraska' nasce desse lugar. Um álbum folk, cru, gravado de forma caseira, quase como um diário sonoro. O filme trata o processo criativo como algo íntimo, quase terapêutico. A música surge como autoterapia, como tentativa de organizar o caos interno. Cada canção carrega uma verdade que não se deixa domesticar. Não há filtros. Não há concessões fáceis. O artístico, aqui, entra em choque frontal com o comercial. De um lado, a gravadora querendo extrair ao máximo o artista: coletiva de imprensa, tour, entre outros protocolos padrões. De outro lado, um artista intimista em um momento de se reencontrar, se curar.  

Esse embate é um dos eixos centrais do filme. De um lado, a gravadora, que precisa, e quer, sugar de Bruce um produto vendável, expansivo, radiofônico. Do outro, um artista em crise, que entende que mentir artisticamente seria uma forma de adoecer ainda mais. Criar um álbum reservado em meio à engrenagem industrial soa quase como um ato de rebeldia silenciosa. E talvez seja. A busca pela própria verdade move o filme do início ao fim, mesmo quando isso significa se isolar, se afastar, se fechar.

Esse isolamento criativo, no entanto, não é romantizado. O filme deixa claro que ele também esconde um estado depressivo. Bruce precisa se conhecer melhor e praticar o autocuidado para conseguir seguir em frente. Não apenas como artista, mas como ser humano. Há cenas em que a solidão pesa, em que a introspecção e a falta de som gritam mais alto do que qualquer acorde. São momentos de introversão absoluta, necessários, mas perigosos. Criar é árduo, mas viver exige atravessar esse abismo.

Nesse percurso, a amizade com Jon Landau surge como ponto de ancoragem. Landau é mais do que empresário ou conselheiro artístico: é confidente, escuta, presença. Um fiel escudeiro que entende que, às vezes, o melhor a fazer é não empurrar, não cobrar, mas sustentar a personalidade difícil do outro. Essa relação confere humanidade ao filme e impede que Bruce se perca completamente dentro de si mesmo.

Há também um interessante paralelo, quase inevitável, com a persona de Bob Dylan retratada em 'Um Completo Desconhecido'. Assim como Dylan, Springsteen foge dos holofotes como o "diabo foge da cruz". Ambos entendem que a exposição excessiva pode corromper a essência do gesto criativo. A introspecção deixa de ser pose para representar uma necessidade vital.

Tecnicamente, Scott Cooper opta por uma direção sóbria, madura e respeitosa. Não há excessos estéticos nem arroubos estilísticos gratuitos. A câmera observa, acompanha, espera. O filme respira no tempo do personagem. A sensibilidade está na maneira como os espaços vazios, os quartos silenciosos e os momentos solitários dialogam com o estado emocional de Bruce. Tudo parece levemente deslocado, como se o mundo estivesse fora de sintonia — exatamente como ele se sente.

No fim, 'Springsteen: Salve-me do Desconhecido' é um filme sobre coragem. A coragem de olhar para dentro, de enfrentar traumas, de recusar caminhos fáceis e de escolher a verdade, ainda que ela doa. Um filme emocionante, sensível e maduro, que entende que a arte não nasce do aplauso, mas da ferida. E que, às vezes, salvar-se do desconhecido é aceitar que ele faz parte de quem somos.

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