domingo, 8 de fevereiro de 2026

OSCAR 2026 - O Agente Secreto


Por Rafael Morais

'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho, é um filme que escuta antes de falar. E quando fala, o faz em voz baixa. Não por delicadeza, mas por sobrevivência. Ambientado em um Brasil onde o Estado se traveste de aparelhagem opressora, onipresente e difusa, o longa constrói sua dramaturgia menos pela ação ostensiva e mais pela paranoia cotidiana, pela sensação de estar sempre sendo observado, seguido, escutado. 

Não é gratuito que os personagens sussurrem. O roteiro entende o silêncio como signo político. Em tempos de repressão, o silêncio não é ausência de som, mas estratégia. É linguagem cifrada. É autopreservação. Kleber transforma o ato de falar baixo em gesto dramático e em comentário histórico: quem vive sob vigilância aprende que a palavra pode ser uma sentença. O som (ou a falta dele) passa a operar como elemento narrativo tão importante quanto a imagem. O silêncio pesa. O silêncio acusa. O silêncio denuncia.

E é nesse Brasil abafado que Wagner Moura constrói uma atuação de contenção admirável. Seu personagem carrega no corpo o cansaço de quem já entendeu o funcionamento da máquina, mas ainda insiste em resistir a ela. O cara atua com os olhos, com a postura, com a respiração curta. Há algo de animal acuado em sua composição, alguém que fareja o perigo antes mesmo que ele se materialize. Sua presença em cena nunca busca protagonismo ruidoso; ela se infiltra, tal qual o próprio título sugere. É uma atuação que dialoga frontalmente com o clima do filme: tudo é ameaça, tudo é potencialmente armadilha.

A aparelhagem do Estado, aqui, não se apresenta apenas nas figuras oficiais (que parecem estar sempre de olho e cercando) ou nas instituições explícitas. Ela se manifesta nos detalhes, nos protocolos invisíveis, nos espaços controlados, na arquitetura que vigia. Kleber, como já é de praxe em sua filmografia, compreende o espaço como personagem. Prédios, salas, corredores e ruas carregam memória, mas também opressão. Nada é neutro. Cada ambiente parece guardar ecos do que já aconteceu ali — e do que ainda pode acontecer.

Nesse sentido, a direção de arte e a recriação de época são irrepreensíveis. Os objetos, os figurinos, as texturas e os espaços não estão ali para embelezar o passado, mas para evidenciar suas fissuras. A época recriada é suja, opaca, marcada por tons que remetem ao desgaste e ao abafamento. Tudo parece ligeiramente gasto, como se o tempo tivesse passado mal por ali. A opressão também envelhece os lugares. 

No entanto, a bela fotografia de Evgenia Alexandrova satura o Recife dos anos 70 e contrasta com a violência do subtexto: afinal, as cores vibrantes passam uma sensação de alegria e calor humano, de nostalgia. É "pecado" sentir saudade disso, ao passo que vivíamos momentos de terror? Contraponto sagaz de um roteiro intrincado auxiliado pelas lentes de Alexandrova.

E aí entra o saudosismo e o bairrismo tão característicos de Kleber Mendonça Filho, mas que aqui ganham contornos mais melancólicos. Há um apego claro aos espaços culturais, especialmente ao prédio do cinema, esse templo laico que, aos poucos, desaparece, seja fisicamente, seja simbolicamente. O cinema que some é também o Cinema que se esvai enquanto experiência coletiva, enquanto ritual urbano, enquanto lugar de encontro e reflexão. 

Não por acaso, Kleber (como um bom cinéfilo que é) povoa o filme de referências explícitas a clássicos como 'Tubarão, King Kong e A Profecia'. Não é citação gratuita: são filmes sobre medo, monstros, presságios e ameaças que emergem do invisível. O cineasta se inscreve, conscientemente, nessa tradição.

Esse amor pelo Cinema (com C maiúsculo) dialoga diretamente com o resgate da memória e da cultura que o filme propõe. O diretor não está interessado apenas em contar uma história de repressão política, mas em preservar fragmentos de um Brasil que insiste em desaparecer. Os causos, o folclore, as histórias miúdas, as conversas de esquina — tudo isso funciona como resistência simbólica. Enquanto o Estado tenta apagar, padronizar e silenciar, a cultura popular insiste em lembrar, narrar e reinventar.

O filme opera como uma espécie de retorno do reprimido. Aquilo que foi empurrado para debaixo do tapete histórico volta sob a forma de imagem, som e memória. O inconsciente coletivo brasileiro, marcado por ciclos de autoritarismo, encontra aqui uma tentativa de elaboração. Mas não de cura fácil. O longa, desta forma, não oferece catarse. Oferece incômodo.

Assim como em outros trabalhos do diretor, o passado não está morto. Ele infiltra o presente, contamina o agora, ameaça se repetir. E talvez por isso 'O Agente Secreto' soe tão atual. Os signos da repressão estão ali, reconhecíveis demais para serem apenas históricos. O filme olha para trás, mas com um olho perigosamente atento ao que nos cerca hoje.

No fim, Kleber Mendonça Filho reafirma seu Cinema de escuta, de memória e de resistência. Um Cinema que entende que lembrar é um ato político. Que preservar cultura é enfrentar o apagamento. E que, às vezes, falar baixo é a única forma de continuar falando.

Comentários
1 Comentários

1 comments:

  1. Perfeito! Acrescento apenas que o filme permite a reflexão de que todos devemos ser intolerantes com quaisquer manifestações de defesa ou retorno de um um período tão cruel da história do Brasil, punindo severamente aqueles que porventura tentem afastar o tão difícil Estado Democrático de Direito que conquistamos com o sangue de muitos, sendo um dever de todos lutar pela sua manutenção.

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