domingo, 10 de abril de 2016

NOS CINEMAS: Rua Cloverfield 10

Por Rafael Morais

Quando foi publicada a prévia de "Rua Cloverfield 10", o mistério que envolvia a produção era notório, uma vez que o seu título carrega uma menção expressa a outro filme: "Cloverfield - Monstro". Contudo, diferente de seu antecessor, este filme possui uma escala bem menor quando aposta em um suspense psicológico tenso e no estudo de personagens. Na verdade, o longa funciona tão bem, com autonomia, que não havia necessidade de atrelá-lo a outro, numa clara tentativa de estratégia mercadológica para levar um público alvo que já curte aquele universo. 

A história narra o conflito de três personagens que se veem às voltas num bunker, enclausurados, por conta de Howard (o extraordinário John Goodman), um sujeito paranoico que constrói esta espécie de abrigo para, segundo ele, se livrar de uma suposta guerra nuclear que de repente, embora ele já esperasse, assola o mundo lá fora. A moral de Howard é questionada desde o momento em que salva Michelle (a bela Mary Elizabeth Winstead) de um acidente automotivo, mantendo-a em cárcere privado, insistindo que não podem sair por conta dos efeitos nocivos das bombas. 

Também conhecemos o carismático Emmett (John Gallagher Jr.), que diferente de Michelle, quis estar ali dentro, forçando a sua entrada. O cara acredita, piamente, em tudo que Howard diz, sendo totalmente subserviente. Funcionando como alívio cômico, Emmett é figura chave na trama do roteirista Damien Chazelle, uma vez que a sua ingenuidade conduz o arco dramático para um desfecho essencial, impulsionando a história pra frente. 

Assim, o clima claustrofóbico é bem representado não só pelo cenário fechado, conferindo vida própria a cada ambiente - ponto para a caprichada direção de arte - como também por close-up’s que cerram a protagonista constantemente, enquadrando-a tal qual a sua situação naquele lugar. Dona de diálogos afiados, a película é tomada por uma atmosfera cada vez mais densa, tudo auxiliado por ótimas atuações. A direção de Dan Trachtenberg, por sua vez, é competente ao deixar o espectador na ponta da cadeira, tamanha a tensão instalada. 

Com um terceiro ato que se entrega à ficção, se aproximando mais de fitas como "Guerra dos Mundos", por exemplo, este "Rua Cloverfield 10" perde um pouco da coragem ao desfocar da jornada pontual, intimista, quando se vê obrigado, enquanto franquia que tenta ser, à grandiloquência, ao espetáculo do blockbuster. E não que isso seja ruim, mas, com certeza, cai nas convenções do gênero tornando a experiência com um gostinho de déjá vu.

*Avaliação: 4,5 pipocas + 4,0 rapaduras = nota 8,5


Nenhum comentário:

Postar um comentário