segunda-feira, 12 de novembro de 2012

EM CARTAZ: Gonzaga, de Pai para Filho

Breno Silveira mantém, com inteligência, a mesma fórmula de sucesso utilizada em 2 Filhos de Francisco.
Rafael Morais
12 de novembro de 2012.

No ano de seu centenário, o Rei do Baião ganha uma bela e justa homenagem proporcionada pela sétima arte. Uma superprodução, orquestrada pelo diretor Breno Silveira (2 Filhos de Francisco, Era Uma Vez e À Beira do Caminho), trouxe à tona a história entre pai e filho que serviu como pano de fundo para o longa. O argumento surgiu de uma entrevista que Gonzaguinha gravou com o pai no início dos anos 1980, quando se encontrava no auge. As fitas, nunca divulgadas, mostram o duro acerto de contas entre pai e filho, fruto da distância a que Gonzagão, pai hesitante e desconfiado da paternidade de Gonzaguinha, se manteve durante a maior parte da vida do cantor. 

A tarefa do cineasta não era fácil: contar uma história que atravessa seis décadas, e já bem conhecida pelo grande público, exceto a "carta na manga", que foi essa gravação da conversa nunca antes revelada. Para tanto, a direção de arte se redobrou no intuito de conferir a realidade da atmosfera da época, além da utilização de vários atores para os papéis de Gonzagão e Gonzaguinha, interpretados e recontados durante a cronologia narrativa do filme.

Para fugir das armadilhas de uma "filmografia" (longa que conta a biografia de um personagem) e não cair em tons novelescos, foi utilizado figurinos, cenários e locações condizentes com a história, inserindo o espectador no universo da película, ou seja, o sertão nordestino, sua seca e sua gente. E foi desse lugar inóspito pelo clima, mas acolhedor pelo povo, que surgiu a inspiração para as canções de Luiz Gonzaga. As músicas parecem ganhar cores e corpo, demonstrando uma verdade sonora tão buscada por qualquer artista.

Vale destacar também a bela e diegética fotografia, na qual se pontua, com elegância, a trama, dando a atmosfera certa ao período que as cenas pretendem retratar. O uso de cenas de arquivo ao longo da história também é feito de forma eficiente, sem se deixar apelar ou ultrapassar os limites.

O elenco, por sua vez, foi muito bem escolhido. Os intérpretes de Gonzagão, em todas as suas fases, transbordam em carisma o que lhes falta em técnica dramática. O resultado é ainda melhor quando se descobre que Silveira usou atores amadores no papel: o intérprete que tem mais tempo em cena, Chambinho do Acordeom, se sai muito bem. Já Julio Andrade, que vive o Gonzaguinha adulto, é o grande destaque da produção. Seu trabalho de caracterização é impressionante, emulando a voz e a linguagem corporal do cantor com perfeição, dando a impressão que aquilo não é apenas uma grande atuação, mas quase uma reencarnação.

Mas é em matéria de emoção que o longa ganha o espectador desde o início. A partir da magnífica introdução, já ficamos certos de que a história não será superficial, muito menos genérica, como algumas produções costumam derrapar. A profundidade de uma relação entre pai e filho rebusca, ao longo da história, as vãs tentativas de justificar os entraves, anseios e conflitos entre eles. A matéria-prima do novel cineasta são justamente as relações triviais advindas de um casal (namoro ou matrimônio) ou entre pais e filhos. 

O uso da música popular, por sua vez, que seria um recurso oportunista em mãos menos talentosas, só reforça esse interesse de Silveira em retratar a vida íntima dos brasileiros – as canções de Zezé Di Camargo, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha nunca são só enfeites para as cenas; dizem tanto da trama quanto os diálogos e as situações. Silveira anda por um terreno firme e seguro e por "mares já d'antes navegados".

E o que seria da música popular brasileira se não fosse Nazinha - a filha do coronel que foi terminantemente proibida de se casar com o então jovem Luiz Gonzaga - ? Assim quis o destino que o Rei do Baião fosse um "produto" de tudo o que ele viveu: namoros proibidos, secas e bastante vontade de ser alguém na vida. 

A bem da verdade é que todo grande artista tem na desilusão, e nesse caso, na frustração de um amor não correspondido, o mote para aflorar uma inspiração guardada lá no íntimo de seu ser. Vencer na vida e provar para aqueles que não acreditam, sempre será um combustível para a vitória. Ainda mais quando se está no sertão e a verdade lhe bate a cara, literalmente, como na emocionante cena em que a mãe do jovem sanfoneiro, aos prantos, lhe dá uma surra esbravejando: "Você é pobre e negro. Se olhe no espelho". A partir dali, a identidade de Luiz estava sendo talhada, e o ídolo estava nascendo para a vida, sem se deixar levar pelas mágoas ou tristezas, como a maioria faria no seu lugar. Sacudiu a poeira e saiu da sua zona de conforto para se tornar um ícone da MPB; um artista que marcou gerações e levou a verdade de um nordeste que poucos conheciam.

Trailer:
            

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