sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

OSCAR 2026 - Uma Batalha Após a Outra


Por Isa Barretto e Rafael Morais

'Uma Batalha Após a Outra' acompanha um ex-ativista político que, décadas após ter sido protagonista de um conflito ideológico intenso, se vê novamente envolvido em uma disputa que parece repetir os mesmos erros do passado. Cercado por antigos aliados e novos interlocutores igualmente desgastados, ele atravessa uma sucessão de confrontos morais, pessoais e simbólicos, em um cenário onde as causas perderam clareza e a luta tornou-se um hábito. 

Paul Thomas Anderson constrói um filme marcado pelo desgaste e pela repetição, usando o conflito não como um motor de progresso, mas como sintoma de uma sociedade presa a embates que nunca se resolvem. A direção é seca e recusa qualquer tentativa de heroização. Anderson observa seus personagens à distância, interessado menos em suas vitórias do que no impacto emocional de continuar lutando.

Leonardo DiCaprio (como Bob Ferguson) sustenta o filme com uma atuação contida e calculada. Seu personagem carrega um cansaço ideológico profundo de alguém que já acreditou, que já se engajou e agora se move por inércia. É uma atuação madura, que dialoga diretamente com o discurso do filme. 

E parafraseando o próprio título do longa, a tal da batalha após a outra representa a paternidade de Bob Ferguson. Se a revolução política radical não aconteceu e se transformou em uma ideologia distante, uma geração frustrada, o mesmo não aconteceu com o personagem quando ele se descobriu pai: nesta nova perspectiva, o cara teria que redirecionar toda a sua energia e se desdobrar para manter o rebento em segurança. Afinal, encarar a rebeldia efervescente de um adolescente pode ser tão desafiador quanto. Assim, entre "covardia" e porto-seguro, o pai faz o que deve fazer: proteger.

Já os coadjuvantes funcionam como extensões desse estado coletivo. Sean Penn aparece de forma mais agressiva, quase excessiva, representando o conflito levado ao limite da obsessão. Benicio del Toro, em registro oposto, aposta na ambiguidade, reforçando a atmosfera de desconfiança constante. Teyana Taylor traz uma presença física firme e pragmática, sugerindo uma geração menos idealista e mais adaptada à repetição das batalhas.

Visualmente, Anderson mantém os personagens confinados ali, em enquadramentos que reforçam a sensação de cerco. A montagem não só repete os padrões, como situações, criando um cansaço que não é falha, mas escolha estética.

A crítica social atravessa todo o filme com ironia amarga. Uma Batalha Após a Outra questiona a romantização da luta permanente e expõe como causas legítimas podem se esvaziar quando transformadas em rotina. O filme sugere que o maior impacto dessas batalhas intermináveis não é a mudança social, mas o desgaste psicológico de quem insiste em continuar.

Ao final, Anderson deixa a sensação incômoda de que persistir nem sempre significa avançar — e que algumas batalhas existem apenas para se repetir. É um filme denso, provocador e consciente do desconforto que provoca.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Meia-Irmã Feia

 

Por Isa Barretto

A Meia-Irmã Feia não quer recontar Cinderela. Quer expor o custo de tentar caber nela.

Dirigido e roteirizado por Emilie Blichfeldt, o filme parte do conto dos Irmãos Grimm para deslocar completamente o ponto de vista. Aqui, a protagonista não é a escolhida, nem a salvável, nem a “boa o suficiente”. É aquela que sempre ficou à margem — não por falha moral, mas porque o sistema nunca previu um lugar possível para ela.

A narrativa acompanha uma das meias-irmãs de Cinderela, criada sob a pressão constante de se tornar desejável em um mundo onde beleza é acesso, valor e sobrevivência. Orientada por uma madrasta pragmática e cruel, ela passa por sucessivos processos de autocorreção física e comportamental na tentativa de competir por reconhecimento e ascensão social. O conto de fadas se transforma, então, em uma espiral de violência estética, ressentimento e apagamento do próprio corpo.

O grande acerto do filme está em tratar a feiura não como ausência de beleza, mas como falha social. Ser feia, nesse universo, significa não performar corretamente a feminilidade exigida. O corpo torna-se território de disciplina: ajustar, apertar, moldar, ferir. Não há vaidade aqui — há sobrevivência. A beleza não é desejo; é imposição.

As atuações sustentam essa leitura com rigor. Lea Myren, como a meia-irmã, entrega uma performance física e emocionalmente exaustiva, marcada por contenção, desconforto e um olhar que carrega frustração antes mesmo das palavras. Seu trabalho evita caricatura e constrói uma personagem que é, ao mesmo tempo, vítima e cúmplice de sua própria mutilação simbólica.

Ane Dahl Torp, como a madrasta, recusa o arquétipo da vilã histérica. Sua crueldade é racional, quase administrativa — e justamente por isso mais perturbadora. Ela não odeia; ela gerencia. Já Thea Sofie Loch Næss, como Cinderela, aparece menos como pessoa e mais como ideal: silenciosa, etérea, distante, funcionando como uma projeção inalcançável.

Blichfeldt conduz essa história sem qualquer romantização da dor. O horror corporal surge como consequência lógica de um sistema que normaliza a violência estética e a chama de escolha. Cada gesto de autocorreção levanta uma pergunta incômoda: até onde é razoável ir para ser aceita? — e, mais importante — quem se beneficia desse sacrifício?

Visualmente, o filme equilibra beleza e repulsa com precisão. A cinematografia trabalha texturas, closes e enquadramentos que aprisionam o corpo no quadro, reforçando a sensação de inadequação constante. O “bonito” nunca é gratuito; ele sempre cobra um preço.

O príncipe, figura central nos contos tradicionais, aqui é quase irrelevante. Ele não representa amor, mas validação social. O final feliz deixa de ser o encontro afetivo e passa a ser a aceitação pública. Não é sobre amar alguém — é sobre ser escolhida.

A Meia-Irmã Feia é um conto de fadas para adultos que não oferece catarse nem redenção. Ele fala de patriarcado internalizado, da competição feminina como mecanismo de controle e da violência travestida de mérito. Ao inverter o olhar, Blichfeldt não tenta salvar sua personagem. Ela faz algo mais potente: expõe um sistema em que, para algumas mulheres, não existe final feliz — apenas adaptação ou ruptura. E ambas doem.