segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Exclusivo Netflix - NADA DE NOVO NO FRONT


Por Rafael Morais

"Nada de Novo no Front", exclusivo da Netflix, é uma adaptação do romance homônimo de Erich Maria Remarque que narra a jornada do adolescente Paul Baumer, e seus amigos, convocados para atuar na linha de frente da Primeira Guerra Mundial. O jovem começa seu serviço militar de forma idealista e entusiasmada, mas logo é confrontado pela dura realidade do combate. Esta é a terceira versão desta história. A primeira, de Lewis Milestone, em 1930, venceu o Oscar de Melhor Filme. A outra versão, de 1979, é a menos conhecida e foi realizada por Delbert Mann.

Mas esta nova releitura, dirigida por Edward Berger, tem na bagagem cinematográfica obras como "Glória Feita de Sangue", do mestre Stanley Kubrick, ao adentrar e passear pelas trincheiras através do uso de steadicam, por exemplo. É o aprimoramento técnico de uma fórmula de sucesso. Captar as feições desesperadas ao passo em que coloca o espectador geograficamente ao lado desses homens desafortunados na iminência da morte é algo angustiante e aterrador.

Claro que em "1917" Sam Mendes também bebeu dessa mesma fonte, porém, tentou ser mais audacioso ao ir esteticamente além e rodar um longa sem cortes através de take "único", apenas um plano-sequência: disse o marketing. O pano de fundo era o mesmo: a Primeira Guerra Mundial.

Outra clara referência contemporânea é "Dunkirk", de Christophen Nolan. A obra fez escola ao estabelecer um crescente de suspense, sobretudo com a utilização da espetacular trilha sonora.  Assim, à medida em que a tensão aflora, a música de Volker Bertelmann acompanha o ritmo ao demarcar o tempo, quase como um tic tac de uma bomba-relógio. Contudo, aqui os acordes remetem aos horrores da guerra, literalmente. Violinos distorcidos, gritos e tambores secos entram e saem sem cerimônia. Marchas fúnebres premonitórias são inseridas e intercaladas escalonando o medo e preparando o público para algo ruim que está prestes a acontecer. Não há saída para os que vão lutar no front, e o filme deixa claro isso desde o início.

Prendendo a nossa atenção do primeiro ao último frame, a película ainda tem espaço para falar sobre patriotismo inflamado. A exacerbação do discurso desvirtua os interesses enquanto manipula a massa de manobra. Afinal, a alta patente uniformizada precisava de material humano para guerrear, muitas vezes sem propósito algum naquelas trincheiras, sem avançar um centímetro sequer. Havia a necessidade de amealhar jovens para morrer pelo país e o discurso patriótico idealizado, por vezes glamourizado, era eficaz como poder de convencimento.

A verdade é que o tema, por si só, exerce fascínio. Seja por trás das linhas inimigas, nos campos de batalha ou no “xadrez” estratégico das negociações (armistício empurrado goela abaixo), a guerra é implacável e não deixará um legado incólume à humanidade.

Afinal, para ilustrar bem o argumento faço minha a famosa frase de Erich Hartmann, um piloto de caça alemão da Segunda Guerra Mundial, o ás de caça de maior sucesso na história da guerra aérea: “A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam por decisão de velhos que se conhecem, se odeiam, mas não se matam.”

Magnífico, uma das maiores surpresas que o filme me proporcionou residiu na aproximação com os elementos de suspense e horror dentro do gênero de guerra. A "terra de ninguém" devastada é o retrato do caos, do próprio inferno na Terra. É sensacional a estética empregada por Berger quando trabalha a tensão, utilizando até jump scares orgânicos. O gore não é evitado, acertadamente. O enquadramento das batalhas é lindamente fotografado com ares sombrios e sujos, mas não menos contemplativos minutos antes da saraivada de balas ressoar ou de uma bomba explodir.

Esta reimaginação do best-seller, já disponível no streaming, é o candidato da Alemanha para a categoria Melhor Longa-Metragem Internacional do 95º Oscar em 2023. Acho difícil ser superado por outro título.

Por fim, em "Nada de Novo no Front" os discursos manipuladores, e atemporais, assustam tanto quanto os horrores das trincheiras enlameadas de uma Primeira Guerra sanguinolenta retratada de maneira crua e visceral. Imperdível!

*Avaliação: 5,0 Pipocas + 5,0 Rapaduras = 10,0.

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