Por Rafael Morais
'Devoradores de Estrelas' chega aos cinemas carregando um fardo curioso: o de já ser considerado por muitos como o melhor filme do ano, até o momento. E olha que estamos apenas em março. Mais do que isso, ouso dizer que a obra já nasce como um “novo clássico” da ficção científica contemporânea. E, embora a comparação com 'Interestelar' diga mais sobre a ansiedade crítica do que sobre o filme em si, há aqui um frescor inegável, não pela grandiosidade cósmica, mas pela forma como encontra humanidade (e até humor) no insondável.
Baseado na obra de Andy Weir (Project Hail Mary), o longa abraça a ciência como linguagem narrativa. Física e astrofísica deixam de ser ornamento e passam a estruturar o drama. O que poderia soar hermético ganha leveza graças ao roteiro de Drew Goddard e, sobretudo, à montagem engenhosa, que transforma conceitos complexos em ritmo e fluidez. Há uma inteligência rara nesse processo: o filme simplifica sem subestimar. O roteiro pega na mão do espectador não para reduzi-lo, mas para guiá-lo por territórios estranhos à sua experiência, como quem traduz o desconhecido sem esvaziá-lo.
Grande parte desse equilíbrio passa por Ryan Gosling, que reafirma aqui por que é um dos nomes mais consistentes de sua geração. Ele sustenta o filme com uma naturalidade impressionante, transitando do drama existencial ao humor corporal, repleto de gags visuais, sem romper o elo emocional com o público. Seu protagonista é brilhante, mas hesitante; corajoso, mas atravessado por dúvidas. Observe como, diante de uma descoberta, seus olhos se acendem com entusiasmo infantil — apenas para, no instante seguinte, serem tomados por uma sombra de medo. O peso da responsabilidade o puxa de volta. Gosling entende que não há heroísmo puro aqui, apenas um homem em constante negociação consigo mesmo. E é nessa vulnerabilidade que sua atuação encontra força: ele não conduz apenas a narrativa, ele a humaniza.
Na direção, Phil Lord e Christopher Miller trazem da animação uma qualidade preciosa: a capacidade de dar vida ao que, em tese, não a possui. Objetos, interfaces e até formas de existência improváveis ganham presença, intenção, quase afeto. Não se trata de antropomorfismo explícito, mas de uma encenação que sugere pulsação. Como se o universo, ainda que indiferente, aceitasse dialogar por instantes.
Essa escolha reforça um dos eixos mais bonitos do filme: a cooperação entre espécies, a solidariedade que atravessa linguagem, forma e origem. Diante do desconhecido, o filme recusa o caminho fácil da ameaça e aposta na curiosidade, na escuta, no reconhecimento: o encontro com o outro como etapa fundamental para a construção do eu. "Torna-te quem tu és" (Friedrich Nietzsche) passa, inevitavelmente, pelo confronto com aquilo que não se compreende. O protagonista, lançado abruptamente ao chamado à aventura, não parte como herói, mas como alguém que ainda não se reconhece como tal. E talvez resida aí uma das ideias mais interessantes do filme: muitas vezes, os outros enxergam e acreditam no nosso potencial antes de nós mesmos. O heroísmo nasce menos de uma convicção interna e mais de uma circunstância que exige ação.
Esse deslocamento abre espaço para um humor que nunca soa deslocado. Pelo contrário, funciona como respiro e como afirmação de humanidade. Em meio ao vazio do espaço, esse espelho da solidão, rir é resistir. As referências pop pipocam na tela. Desde 'Rocky, Um Lutador' a '2001 Uma Odisseia no Espaço', passando pelas músicas (e o karaokê com a canção de Harry Styles revela um momento inesperado para a personagem pragmática vivida por Sandra Hüller). Os alívios e reminiscências culturais surgem como âncoras afetivas, memórias que mantêm o personagem ligado a algo maior do que sua própria condição.
Visualmente, o filme equilibra o espetáculo com a introspecção. A vastidão do espaço contrasta com ambientes confinados, quase uterinos, onde o protagonista é forçado a confrontar não apenas problemas científicos, mas seus próprios limites. A solidão aqui não é apenas geográfica; é psíquica. É o tipo de isolamento que revela um mergulho involuntário (literalmente) no próprio eu, onde o sujeito precisa negociar com seus medos mais primários.
Mas é no encontro — improvável, delicado, profundamente simbólico — que o filme encontra sua maior força. A solidariedade que emerge não é ingênua: ela é construída, testada, escolhida. E, como toda escolha ética, envolve risco.
Assim, 'Devoradores de Estrelas' não precisa ser o “novo Interestelar”. Essa comparação, na verdade, o apequena. O que o filme faz, com segurança, é se afirmar como um sci-fi maduro (apesar do tom leve), comunicativo e emocionalmente generoso, pronto para ocupar seu próprio lugar entre os grandes do gênero. Um filme que entende que, no meio do infinito, o que nos sustenta não é apenas o conhecimento, mas a capacidade de compartilhar, confiar e reconhecer no outro uma extensão possível de nós mesmos.
Porque, no fim, talvez devorar estrelas seja menos sobre sobreviver ao cosmos e mais sobre aprender a brilhar junto, mesmo quando tudo ao redor insiste em ser escuridão. A esperança há de arder como o Sol, mesmo quando não a vemos. E, no limite, é a fé nessa luz que nos sustenta. Por isso, em tempos como os nossos, esse é um filme necessário.
